Preciso de uma vitrola,
do braço da agulha,
de um disco de vinil.
Careço de uma viola
do interior do Brasil,
do morro pro asfalto,
da mulata de salto
Da segunda de carnaval,
das noites de festival.
Vejo o que ouço e não gosto,
Não ouço o que vejo e me prostro,
Esperando o disco rodar e o som chiar...
Preciso da música
escondida numa vitrola.
quinta-feira, 8 de outubro de 2009
A respeito da vitrola...
segunda-feira, 17 de agosto de 2009
Breve relato

"Eu sou da Maré. Nascido na Maré. Sou ponto turístico. Eu não falo o português correto, meus amigos são a corja da sociedade e nenhum deles possui peito de aço. Embora alguns deles tenham armas calibre 88 prontos pra morrer e estejam participando de uma guerra que já dura dois meses.
Eu tenho pés, pernas, braços, peito e coração. E ainda tenho que sorrir quando enfrento a multidão. Também sinto saudades, tais como da Joana que morreu após um tiro matar sua única filha chamada Esperança.
Vento e poeira, modo reflexivo. A favela não dorme, é calada, sufocada. Faroeste dos aflitos, veste a farda e tira a fralda, sem querer fui engajado, sem querer me humilharam. E ninguém sabe, e ninguém viu. É o preço que se paga pra não matarem a puta que me pariu.
Todos de preto, usam gandola, burucutu, faca na boca, revolver 38, coturno, algemas descartáveis, munições especiais e 6 carregadores de pistolas, fuzil 7,62 mm, coldres táticos, um bastão retrátil e estão prontos pra guerrear… Pássaro blindado. Dinossauros do futuro. Mosca morta sem pensar.
Ouço tudo pelo telefone celular e a midiahipocrisia insiste em enfatizar que a favela é violenta, foda-se quem mora lá. Me dá um ódio. Me dê um ópio!
Fundo do poço. Quase morro. Comercial.
Tum-tum-tum! Pá! Pum! Pá! Pum! Bláaaa! Bláaaa!
Modo observacional. Os números me revoltam: 27 mortos, 6 presos, muitos foragidos e eu sem ver minha família há 1 mês.
Enquanto isso, o Santa Marta vira alvo da especulação imobiliária e os moradores começam a sentir o efeito da ocupação militar no bolso.
'Eles (moradores) olhavam assustados para aquelas pessoas, que nunca estiveram ali, mas logo entenderam que estavam ali para conhecer o êxito do projeto que pacificou uma comunidade que era dominada pela violência do tráfico. Foi mais uma demonstração de atenção. Ficaram felizes, já que não são mais tratados como bichos ou pessoas à margem da sociedade', explica a capitã Pricilla de Oliveira, comandante da Companhia de Policiamento Comunitário do Santa Marta.
Mal sabem eles que os traficantes dessas regiões ocupadas não foram arrebatados por Deus. Estão fortalecendo outras favelas e tocando o terror em outros pontos da cidade.
Denunciar? Nem pensar, isso é cultura popular. Então deixa os hômi entrar, pacificar, esculachar e depois virar herói?! Melhor se demitir, aqui bandido somos nós.
Gentes do morro, tudo enlatado. Nome vulgo, raça do caralho. Os ditos massa. Guerra covarde, terceiro mundo e ainda dizem que é evolução. Tudo é questão de pá e enxada.
Nem Fome Zero, nem Bolsa Família... o que me deram foi meia dúzia de balas perdidas. Meu santo forte é de madeira, nem se mexe pra não dar bandeira. Dinheiro curto, trabalho incerto.
E o povo grita, suplica, tenta se organizar. A repressão bate na porta. Mas prometemos que não vamos recuar. Resistiremos. Tipo Romênia. Tipo Colômbia. E que caiam por terra todos os dominadores deste tempo! Por um complexo da Maré livre!
Tum-tum-tum! Pá! Pum! Pá! Pum! Bláaaa! Bláaaa!
Porque a guerra é armada, a luta conceitual e a batalha não está perdida!
Chega de guerra na Maré, quero voltar pro Cabaré!
Mas quem vai me ouvir? Digam ai.
E ó, avisa pra geral aqui é o cria do Pinheiro!"
-----------------------------------------------------------------
Texto do Josinaldo Medeiros, morador da Maré.
segunda-feira, 13 de julho de 2009
Os falsos elogios
Dizem que o Rio de Janeiro é lindo.
É, mas tirando a natureza o que sobra?
Você tem olhos lindos?
Parabéns!
Não se orgulhe demais, pois não há mérito pessoal nisso.
No máximo, genético.
Elogio bom é pelo esforço.
Por algo construído no tempo.
Um agrado, um sopro, um reconhecimento, um prêmio para seguir adiante.
Cuidado, assim, para você não parar no espelho dos olhos dos outros.
O falso elogio congela.
Texto cedido ao Ponto e Vírgula pelo professor Carlos Nepomuceno.
segunda-feira, 6 de abril de 2009
Faroeste urbano…
Per un Pugno de cioccolato
Estávamos todos numa sala de um agradável apartamento no bairro carioca do Flamengo – belo nome, diga-se de passagem –, silenciosamente dispostos ao redor daqueles objetos. Objetos estes dos mais diversos invólucros, cores e tamanhos, alvos da cobiça de todos os presentes. Todos se entreolhavam, tal qual um daqueles spaghetti westerns, clássicos protagonizados principalmente por Clint Eastwood, entre outros. A essa altura já se podia ouvir com perfeição aquela trilha sonora clássica de Enio Morricone, que se sobrepunha à MPB FM sintonizada no rádio, ainda que apenas em nossas cabeças. Na parede, apenas um quadro, que reproduzia o pôster de “Cinema Paradiso” – sei que não tem nada a ver, mas tinha que comentar, porque acho esse filme sensacional.
Enquanto a tensão se elevava no ambiente, todos esperavam pela sua vez: frágeis papeis picados indicavam os nomes que aleatoriamente decidiriam a sorte daqueles objetos. O primeiro, ou melhor, a primeira deles se levanta e escolhe um dos objetos, retira-lhe a embalagem e revela a todos o seu conteúdo: um toblerone, um alpino, duas caixas de bis, um kinder ovo, e alguma outra coisa que não me recordo agora.
- Impossível! Isso daí com certeza custou mais de quinze reais! – era o pensamento corrente naquela sala nesse momento. E por ter a certeza disso, todos o desejavam.
Explico: tratava-se pois, de um amigo oculto. Mas não um amigo oculto qualquer, mas de chocolate. Vou além: não apenas um amigo oculto de chocolate, mas daqueles de roubar. Nessas ocasiões tudo torna-se pessoal; discussões são iniciadas, amizades são rompidas, tudo em nome da ganância provocada pelo chocolate.
Assim correu a noite, entre risos e abraços que não eram ainda assim capazes de diminuir a tensão provocada pela vontade de buscar o melhor presente. E, alheia a tudo isso havia lá uma caixa de sapato: simples, sem graça, e ainda por cima envolta com um papel prateado, que insistia em descolar conforme as horas passavam. E o pior, fora trazida por alguém muito suspeito em se tratando de esolher presentes em amigo oculto – pra se ter uma ideia, houve uma vez em que o mesmo indivíduo trouxera, para o Natal, um “resta 1” de plástico. Quase voltou com o presente.
Acontece que, entre uns nomes e outros, entre o fim de uma amizade e outra, acabei perdendo claríssimas chances de levar pra casa excelentes presentes, que me foram roubados no último minuto. E lá estava a caixa, que ninguém queria sequer saber do que se tratava, até que por conta do destino, e dos roubos, veio parar no meu colo. E qual não foi a surpresa de todos ao saber que a caixa, antes desprezada, continha inúmeros bombons, em quantidade em muito superior a qualquer outro presente daquele amigo oculto!
Admito que roubei também, mas apenas porque já tinha sido roubado diversas vezes, e não queria sair no prejuízo. No fim das contas, eu, que havia sido o mais roubado da noite até então, acabei levando pra casa o patinho feio, que minutos antes tinha se revelado o mais belo cisne de páscoa da noite.
Quanto às amizades, não obstante o chocolate desperte os mais primitivos desejos – como bem disse Roberto Jeferson, alguém ainda lembra dele? – no coração de uma pessoa, no fim da noite não havia mais mágoa alguma, e todos – ou quase – voltaram para suas casas devidamente satisfeitos.
terça-feira, 31 de março de 2009
Texturas
Pois bem, que procuras?
No texto texturas,
tais como juras de um amor
que não dura o tempo que for preciso pra se revelar?
Texturas no quarto
Na sala de estar
Na coca-cola, em meio ao jantar
No cômodo incômodo, ao se arrepiar
Na corrida, pra não se atrasar
Na vontade apenas de se bem amar.
A quase-poesia é na verdade apenas uma desculpa pra colocar umas fotos por aqui…
sexta-feira, 27 de março de 2009
Que a falta me falte
Foto da foto por Renan
Começou a cair o outono.
Nas mãos o coração
No coração, a primavera
Escutou-se o som dos pássaros,
o piar em meio às folhas mortas.
No ouvido o coração
No coração, o som de outrora
Lembrou-se das manhãs das flores
e o cheiro que é mais denso
que qualquer outra lembrança.
Nos olhos o coração.
No coração, lágrimas de falta.
A falta que traz o luto
Quisera eu vencer a luta, mas não soube lutar.
A falta que traz a dor
Quisera eu ser amado, amor que não soube dar.
Essa falta que ultrapassa a saudade,
deixa um vazio e a ânsia de respirar,
subir à tona antes de sufocar
entre súplicas de que a falta me falte.
A poesia acima é uma contribuição de Julia.
sexta-feira, 13 de março de 2009
O caminho do mar…
na hora que as pessoas levantam pra ir trabalhar, eis que ele volta de lá, cansado, mas realizado. novamente, fez seu trabalho, trouxe seu sustento, a comida do rebento e a satisfação de fazer bem feito aquilo que Deus lhe permitiu fazer.
prende o barco, guarda as redes, carrega os peixes. limpa, grita, vende. e assim segue a manhã inteira, até chegar em casa e ver a mulher, rendeira, trabalhando pra ajudar no sustento, prover à família um melhor contento. conserta as redes, tece rendas de sonhos, numa espera enorme.
espera o marido retornar do mar, espera o filho, que acabou de nascer, tornar-se de uma grandeza tal que espante tudo que há de mal, e os carregue dali. leve-os para um lugar onde não haverão de se preocupar com as agruras de se depender daquilo que lhes manda o mar. rezam para que sua mãe que está nos céus, e que os guia em todas as suas jornadas, permita-os um dia não precisar mais pescar.
só que o que fará o pescador quando esse dia chegar? nasceu para isso, outro ofício não aprendeu jamais; conhece apenas daquilo que o mar lhe traz. sentir-se-á sozinho, sem propósito a realizar neste mundo. eis que quando este dia chegar, quando seu filho o resgatar e não mais tiver que pescar, o pescador, ao encarar as águas, seja em qualquer lugar, haverá de se levantar, pegar suas redes e lançá-las à infinitude do mar.
"Sempre pensar em ir
caminho do mar.
Para os bichos e rios
Nascer já é caminhar.
Eu não sei o que os rios
têm de homem do mar
Sei que se sente o mesmo
e exigente chamar.”
João Cabral de Mello Neto.
terça-feira, 10 de fevereiro de 2009
Vida, Vocação e Festa
Cultura, para mim, é vida, vocação e festa, como diria Ariano Suassuna.
É o modo de um povo se expressar, colocar para fora todo o seu pensar.
É mais do que um breve cantar ou falar vai além do que quem não
conhece possa imaginar. É a junção do erudito com o popular, é o misto
de Chico e Alceu, Tom Jobim e Erasmo, Los Hermanos e Paulinho da
Viola. Não digo que é para generalizar, mas dá para juntar.
Está além do preconceito ou modo de falar, cultura é ser, estar,
ficar, permanecer e continuar. É respeitar o que se acha exótico,
gótico, barroco, clássico, moderno, antigo.
Vem do grego, do latino, do europeu, do meu sofrido povo brasileiro.
É a literatura de Machado de Assis, numa mistura fina com Clarisse
Lispector, na beleza da Literatura de Cordel, na defesa da escrita de
Martha Medeiros, nas rodas de samba das ruas, nos bares, esquinas,
favelas, no coco de roda, maracatu, funk, forró, no eterno carnaval.
Tá no país sem preconceitos, pré formações, pré julgamentos.
Advém da multiracialidade, multiculturalidade, do negro, do branco, do
social, vai além do racional, para mim, consiste pura e simplesmente
do emocional.
Emocional do meu povo brasileiro lutador, do sertão e do litoral, da
vaquejada e do brega, chique, elegante, raso,claro e profundo.
É mais do que eu ou você, é um ser Nós, um plural de diversidades
contagiantes, é dar espaço para todos igualmente terem acesso a todas
as leituras, danças, jeitos; é ser um eterno denominador comum, sempre
respeitando as diferenças de cada um, no seu individual.
Vem de mim e de você, vem do saber, é dar ao povo oportunidade de
conhecer, ser cidadão. Cultura, para mim, tá embutida na tão falada
educação.
Essa prosa poética acima é uma contribuição de nossa amiga Leda, recifense, pernambucana, niteroiense, brasileira. Ouvindo Paratodos, de Chico Buarque.
terça-feira, 27 de janeiro de 2009
Ela era tudo na minha vida
(Francisco Ferraz)
Ela era tudo na minha vida
Mas tudo na vida passa
E sempre que passa não deixa
Espaço pra tudo que ainda ficou
Um dia ela só acordou e pensou
No que é, no que era e no que ia ser
Decidiu que seria melhor não mais ser
Do jeito que é
Resolveu como seria sua vida
E saiu prum passeio a pé
No cabelo não mais a presilha infantil
Nem a cor que escondia o olhar
E nas roupas não mais as camisas
De histórias, de bandas, de estilos sutis
Preferiu as camisas lisas de cores pastéis
No ouvido não mais baterias, guitarras
Baladas, refrões e alargador
Melhor era pandeiro de sambas falados
Cantados por moças que fingem amor
E eu do seu lado acompanho todas as mudanças
Como quem senta e assiste ao luar
Só depois percebi que seria o próximo dela largar
Hoje vejo que ela caminha, quadris sempre em linha
Com outro do lado, sorrisos de lá e de cá
E sempre que olho percebo que ela me olha
Como sempre me olhou, e talvez vá olhar
Agora que vejo que ele é o jeito dela jamais me largar
O vídeo e a poesia são contribuições do amigo Francisco Ferraz, um misto de petropolitano, poeta, músico, videomaker e bonequinho no BuddyPoke!
terça-feira, 13 de janeiro de 2009
A morte-vida do poeta
Essa poesia é uma contribuição de nossa colaboradora Helena.