Você deve estar se perguntando o que essa foto tem a ver com esse título, mas eu chego lá. Era por volta de 21h30, se não me falha a memória. Caía uma chuva torrencial. O ônibus em que estava passava nesse exato momento pela praça do pedágio da ponte Rio-Niterói. Eu comemorava, pensando que poderia chegar alguns minutinhos mais cedo em casa - pra quem faz essa viagem todo santo dia (Niterói - Rio - Niterói), alguns minutos de diferença é lucro - já que na semana anterior eu tinha passado pelo mesmo local por volta de nove e vinte, e por isso consegui chegar em casa cedão.
"Dez minutos de diferença não é quase nada", pensei. "Se o trânsito estiver igual ao da semana passada chego em casa rapidinho". Qual não foi a minha surpresa ao sair da ponte e subir aquele viaduto que leva à Marques de Paraná - e consequentemente à Icaraí e Santa Rosa - e depara-me com o trânsito todo parado. Carros e mais carros iam chegando e parando ali, naquele exato lugar sem escapatória.
Como disse, não era muito mais que 21h30, e ali fiquei por um bom tempo. A forte chuva que caía - já comentei sobre a chuva? - repentinamente cessou, reduzindo-se a meros chuviscos, mas ainda assim não havia roda que se movesse. Ali fiquei por um bom tempo, imaginando que se tratasse de um acidente, e que dentro de muito em breve o carro acidentado seria retirado, e as pistas liberadas, assim como o tráfego de carros. Mas que nada.
Algumas pessoas mais esbaforidas não conseguiram esperar sequer meia hora dentro do ônibus - de fato, a possibilidade de ter que esperar horas sentado em um ônibus não deve nada a qualquer método chinês de tortura. Mas pensei que tudo ia se resolver dentro de poucos minutos, que o trânsito se normalizaria e que aquelas pessoas se arrependeriam depois. Que nada: eu me arrependi de não ter levantado antes.
Eis que, uma hora e meia depois de sentado no mesmo banco do ônibus - pois é, quase acabei com a bateria do meu celular, na tentativa de ouvir todas as músicas possíveis, e quando findas estas, todas as rádios que tivessem algo interessante, o que nestas condições se mostra algo quase impossível -, sem que este se movesse um milímetro sequer em direção à minha casa, decido levantar e seguir viagem a pé. "Não é possível que um acidente de trânsito atrapalhe tanto a vida das pessoas", pensei.
Levantei-me e segui na mesma rua, até mesmo para saber do que se tratava, que impedia tanto assim o prosseguimento regular da minha viagem. O cenário que encontrei era devastador: carros tortos no meio da rua, em uma tentativa de retornar - vã, eis que a fila de carros atrás já se estendia até a ponte - e a rua completamente alagada, em nível tal que sequer os ônibus se atreviam a atravessar.
Rapidamente encontrei uma rua paralela que estava seca e segui o caminho das pessoas que, assim como eu, largaram seus lugares nos ônibus e decidiram seguir a pé. A imagem lembrava desses filmes de zumbi ou coisa do tipo, em que a cidade está completamente vazia, e você só vê a fila de cidadãos incautos, ainda não contaminados pelo suposto vírus que dizimou toda a sociedade, tentando buscar um abrigo, mas na verdade caminhando para a morte certa. Ainda bem que era a vida real...
Dalí a história não apresenta nada de mais: segui até o terminal de ônibus no Centro de Niterói - ou seja, andei pra c@#$%&*aralho - e peguei um 53, que por sorte estava parado na hora em que cheguei no terminal. As pessoas na minha frente na fila para pegar o ônibus me disseram que estavam há 50 minutos esperando o ônibus e nada - pelo menos dessa eu escapei.
Ainda peguei um trânsito na Gavião Peixoto, em Icaraí - detalhe: já era quase meia-noite - mas consegui chegar em casa, são e salvo, por volta de meia-noite e quinze, mais ou menos.
Acaba aí minha história. Mas o que isso tem a ver com o título lá em cima? Das duas uma:
1) Fui acordado pela minha mãe, quando ainda passava "Bom Dia Rio" - como se não bastasse a hora em que eu tinha ido dormir -, porque eu apareci na TV. Justamente na matéria em que mostravam os desastres ocorridos na cidade de Niterói durante o temporal de segunda-feira. Por conta do crescimento desenfreado que a cidade de Niterói teve nos últimos anos, com muitas construções, favelização etc, sem o devido acompanhamento pelo Poder Público - fosse restringindo o número de pavimentos dos prédios a um número adequado para a cidade, ou fiscalizando construções irregulares, ou alargando as ruas e cuidando do sistema de captação de água das chuvas - eu acabei aparecendo na TV como vítima disso tudo, coitado.
Ou
2) Minha total falta de criatividade em criar um título decente para esse post, que de fato demonstrasse toda a minha insatisfação com isso tudo que eu escrevi em cima a respeito da incompetência de nossos governantes.
Bem, você decide.
Só pra constar minha set list enquanto esperava no ônibus, assim como também no 53 (alguns discos eu ouvi inteiros):
Quatro, Los Hermanos
Afro-Sambas, Baden Powell
Abbey Road, The Beatles
OK Computer, RadioHead
África Brasil, Jorge Ben
Iê-iê-iê, Arnaldo Antunes
Cartola (1974), Cartola.
sábado, 24 de outubro de 2009
Como ficar famoso e aparecer na TV...
quinta-feira, 8 de outubro de 2009
A respeito da vitrola...
Preciso de uma vitrola,
do braço da agulha,
de um disco de vinil.
Careço de uma viola
do interior do Brasil,
do morro pro asfalto,
da mulata de salto
Da segunda de carnaval,
das noites de festival.
Vejo o que ouço e não gosto,
Não ouço o que vejo e me prostro,
Esperando o disco rodar e o som chiar...
Preciso da música
escondida numa vitrola.
quarta-feira, 5 de agosto de 2009
Qual que mais te apetece?
Coloquei essa foto hoje no flickr, e a reproduzo aqui para vocês, caros leitores. Estava arrumando a minha prateleira e não resisti em fazer esta foto.
E sei que havia prometido a meu sócio que não postaria nada aqui enquanto ele não o fizesse, mas novamente sucumbi à tentação.
Mas a questão aqui é: e quanto a você? Que música enche os seus olhos?
terça-feira, 14 de julho de 2009
Sentado à beira do caminho…
Na semana passada muito se ouviu falar no rei, não apenas o rei do pop, mas o rei Roberto Carlos, e seus cinquenta anos de música. Sinceramente, nunca fui muito fã dele, e isso todos reconhecem: há pelo menos uns quase trinta anos que ele não compõe nada realmente antológico, que justifique a sua majestade.
Admito que em cinquenta anos de carreira ele tem sim suas músicas realmente boas, mas no passado recente não se vê nada de mais. E dessas músicas antigas, a maioria delas feita em parceria com Erasmo Carlos, ou muitas vezes apenas por este.
Por isso que nesse momento de comemorações, venho prestar minhas homenagens àquele que representa de fato a veia artística da dupla Roberto e Erasmo. Sem desmerecer o rei, mas eu prefiro o súdito. Nas últimas semanas, aliás, tenho ouvido bastante um disco do Erasmo, da década de 70 que tem pérolas como “Sentado à beira do caminho” e “Coqueiro verde”, que eu tenho aqui no computador. É engraçado como o estilo dele nesse disco se confunde um pouco com Jorge Ben em algumas músicas, inclusive a voz – talvez devido ao fato de que o próprio Jorge Ben já esteve envolvido com o pessoal da Jovem Guarda, sendo inclusive muito próximo do Erasmo Carlos.
E devo dizer, o som do cara é muito bom, e continua bom até hoje. Basta ir ao MySpace dele pra ouvir o disco mais recente e constatar isso (o disco simplesmente se chama Rock ‘n’ Roll, ritmo que o RC de hoje desconhece por completo).
Acho que RC se tornou rei por ser tão bom em fazer a mesma coisa por anos: a mesma música, o mesmo figurino, os mesmos arranjos, as mesmas manias etc. Erasmo Carlos, por sua vez, tornou-se súdito porque nunca conseguiu ficar estático, precisava sempre se reinventar. Com isso, fugiu da obviedade dos especiais de fim de ano, enquanto o Rei ficou simplesmente sentado à beira do caminho, atirando rosas a quem passava.
Ouvindo Sentado à beira do caminho, de Roberto Carlos e Erasmo Carlos.
sexta-feira, 26 de junho de 2009
walkin’ on the moon…
Estava atônito. Não havia outra palavra para descrever isso. Era por volta de nove horas da noite, minha aula havia acabado de acabar. Ouço os comentários das pessoas, dizendo que não poderia ser possível isso, no que foram prontamente confirmados pelo rapaz que fica na secretaria do curso:
- É verdade, deu na TV. Foi infarto – ele proferiu tais palavras com uma tranquilidade, de modo que ainda assim recusei-me a acreditar.
Então liguei pra casa, e perguntei à minha imã se era verdade isso que eu tinha acabado de ouvir, e sem nem ao menos dizer do que se tratava ela me disse que sim, que ele havia morrido. O hospital teria demorado a confirmar alguma coisa, mas agora já era certo e definitivo: Michael Jackson morreu.
Nesse momento, esperando o ônibus pra voltar pra casa, passou-me pela cabeça um sentimento, tal qual um déja vù, evocando lembranças da minha infância, e de como me sentira quando soube da morte de pessoas que admirava, como Aírton Senna ou os Mamonas Assassinas. Aquele mesmo sentimento passava agora pela minha cabeça: o sentimento de perda de um ídolo, mas que na verdade, não o perdi agora; já o havia perdido ainda na minha infância.
Michael Jackson foi em seu começo de carreira solo, no começo dos anos 80, um revolucionário na música: suas gravações – com recursos altamente inovadores à época, e que repercutem na música negra de um modo geral até hoje, além do fato de ele próprio compor grande parte de suas músicas –, seu modo tão característico de dançar – talvez fosse sua melhor expressão – e seus videoclipes inovadores – numa época em que poucos artistas ainda se preocupavam com isso, ele já fazia os roteiros e escolhia seus diretores a dedo, dentre os quais até Martin Scorcese – o tornaram um artista completo, a ponto de receber a alcunha de rei do pop pela MTV, título nobre que lhe seguiu até o fim da vida.
A MTV fez e ainda faz muitos artistas, promovendo à categoria de ídolos sujeitos muitas vezes sem talento algum: basta sintonizá-la agora mesmo, que você verá uma série de rappers, emos e Britney Spears, e entenderá. Mas nesse caso fica patente que Michael Jackson foi um artista que fez a MTV, com seus clipes que representavam uma inovação à época – época em que poucos artistas tinham essa sacação do vídeoclipe como instrumento de marketing.
Esse período áureo dos anos 80 estão na minha cabeça como lembranças de algo que na verdade não vivi. Já vagueiam como imagens de um artista que havia entrado para a história da música, incondicionalmente. O Michael Jackson que eu me acostumei a ver era aquele dos anos 90, mais dado a excentricidades e escândalos do que propriamente à música, e que vivia à sombra do artista que fora uma década antes. E foi exatamente aí que não apenas eu, mas todos começamos a perdê-lo.
Mas o que ele fez pela música ficará indelével na história. A verdade é que, cá deste lado do blog, todos achamos Michael Jackson um artista sensacional. Ponto! Quer dizer, ponto e vírgula: até porque a parte dele ser acusado (e inocentado, diga-se de passagem) de abusar de criancinhas não é exatamente algo bom – se bem que uma pessoa negra passar a ser totalmente branca não é também exatamente normal, mas partindo do pressuposto que ele tinha vitiligo e não que isso fosse resultado de seu caráter meio errante, tudo bem.
Pois bem, voltando à linha cronológica de minha história, subo no ônibus e escuto, antes mesmo de dar “boa noite” à trocadora:
- Morreu, morreu, antes tarde do que eu!
Pois é, o problema é que nem foi tão tarde assim…
***
O ponto e vírgula é fã do cara e do que ele fez pela música, como um todo. E, parafraseando uma de suas próprias músicas, don’t (sic) matter if he’s black or white, he’ll always be the king of pop.
Aliás, apesar dessa referência, sinto dizer que não há como escolher apenas uma música dele para ilustrar esse post.
***
Tenho suspeitas de que a morte de Michael Jackson tenha sido um complô armado pelo Sarney e pelo Ahmadinejad, presidente do Irã. Repara só, ninguém mais fala neles. Acho que, pelo menos agora, eles nunca foram tão fãs do rei do pop.
segunda-feira, 8 de junho de 2009
Além do que se ouve…
Era algo por volta de onze meia, já me encontrava na barca na volta para Niterói – contando o tempo no relógio, pois que ainda tinha um aniversário para ir. Mas felizmente consegui chegar a tempo e dar os parabéns às aniversariantes. No entanto, o que presenciara há pouco não me saía da cabeça.
Pois bem, pensei em começar esse texto do fim, e daí partir até chegar ao começo, mas vi que não sou tão bom nisso quanto imaginei. Então, com o perdão do pleonasmo, comecemos do começo.
Era quase 10h da noite quando a barca atracou na Praça XV. Exatamente a hora para qual estava marcado o evento, mas ao chegar lá, ainda demorou um pouquinho pra começar; estavam ainda afinando os instrumentos. Depois de um dia inteiro regado a samba e feijoada e amigos, e ainda outro aniversário pra ir, minhas pernas pediam apenas um pouco de descanso, mas tudo bem.
Por volta de 10h15, eis que ele adentra o palco, guitarra em punho apenas, inaugurando os trabalhos com “Passeando”, música que não poderia ser mais emblemática desta sua nova fase profissional, eis que, após uma larga introdução na guitarra, conta com estes poucos versos que transcrevo:
“E lá vai deus sem sequer saber de nós
saibamos pois
estamos sós”.
Pois desta vez, Marcelo Camelo estava só; não contava com seus hermanos no palco, mas apenas com uma banda de semi-barbudos (parece ser prerrequisito, ou pré-requisito*, fiquei na dúvida quanto à grafia correta), muito boa, aliás.
Mas ao contrário do que possa parecer, ele não foi imotivadamente abandonado por seus amigos – creia-me, eu entenderia bem se fosse o caso –, mas quis assim; a banda entrou em recesso, ele lançou um disco, e igualmente lançou-se em carreira solo. E pela primeira vez pude conferir in loco o resultado, e posso aqui afirmar, sem receio: no fim das contas, foi muito melhor do que eu esperava.
Fui para lá sem alimentar muitas expectativas a respeito do show, pois para mim, o disco solo dele (Sou) é bom – nada espetacular –, mas em nada se compara aos Los Hermanos. Mas admito que me surpreendi um pouco. O violão, que sobra no disco dele, foi trocado em algumas músicas pela guitarra, o que deu uma melhor dinâmica para a apresentação ao vivo.
E ele ainda consegue em algumas músicas o que no show dos Hermanos acontecia do início ao fim: ter a plateia cantando junto todos os versos. Isso aconteceu em algumas músicas dele, e em todas as poucas dos LH que ele cantou – essas, aliás, as pessoas presentes ao show já reconheciam com uns poucos acordes, podendo-se entreouvir frases do tipo: “é a música tal que ele vai tocar” ou “essa é dos LH”.
Aliás, o ponto alto do show para mim foi justamente uma música dos Los Hermanos, deixada justamente para encerrar aquela apresentação. Trata-se de “Além do que se vê”, uma bela música, mas que para mim sempre teve muito mais força ao vivo nos shows do grupo do que no disco.
Ele começa a canção no violão, sentado num banco e sendo levado pelas vozes na plateia, dando a entender que seria apenas uma versão acústica de uma de suas músicas, até que entra a banda (exatamente no momento em que se canta: “e a turma diz: assim é que se faz”), e no belíssimo momento instrumental, ele troca o violão pela guitarra e segue tocando com a banda. Nesse momento vê-se umas três guitarras no palco, mais teclado, baixo, percussão e trompete, fazendo um som fantástico, e levando os presentes a uma catarse sonora.
De repente, ele tira a guitarra de seus ombros, levanta-a sobre a cabeça como um troféu e agradece ao público presente simplesmente. Despede-se e vai embora, enquanto os músicos que o acompanham continuam naquela sinfonia no palco, até que, um a um, os músicos acenam para o público e se retiram. E nós, daqui de baixo, vemos a música se desconstruindo e o show acabando.
Realmente, foi melhor do que eu esperava. Descobri que o show está muito à frente do disco e vai, de fato, muito além do que se ouve naquela bolachinha.
O vídeo abaixo foi feito na Virada Cultural de SP – não achei nenhum feito no Viradão Carioca – mas vale a pena ainda assim, porque deixa um gostinho de como foi no sábado.
*minha dúvida consiste em que já há, na língua portuguesa, antes mesmo do novo acordo ortográfico, pré-requisito e prerrequisito, só que este último era muito pouco utilizado, pra uma situação específica, enquanto o outro era mais genérico. Agora como fica? Isso podia ser um outro post, mas agora deixa pra lá…