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terça-feira, 26 de janeiro de 2010

Carta Póstuma

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No tempo em que escrevo esse texto, calendários já são obsoletos. Há muito a humanidade já não sabe em que ano se está exatamente, desde a primeira vinda de Jesus Cristo, que dividiu a história. Não se faz mais sentido saber. Há poucos resistentes, que afirmam saber ao certo em que ano estamos, mas não são confiáveis, eis que até mesmo os números por eles afirmados são muito díspares entre si. Às vezes a diferença chega a dezenas de anos.

A verdade é que há muito tempo a humanidade se esqueceu de contar os anos. Viu que isso não se fazia mais necessário, ou talvez apenas por preguiça mesmo, já que hoje pouco fazemos; as máquinas fazem por nós. Só esquecemos de criar uma máquina que contasse os anos com eficiência – não fomos capazes de prever que aquele erro do bug do milênio se repetiria alguns séculos depois. Mas já estávamos tão entregues ao labor das máquinas que sequer pudemos antever isso.

Por causa dessa incapacidade de adequação cronológica pela qual a humanidade passa nos dias de hoje, não sei dizer ao certo o momento da história em que isso tudo começou. Sei que já faz alguns séculos – dois talvez – uma vez que eu mesmo, que ainda sou jovem, já estava aqui para poder presenciar tal fato. Mas acho que a origem disso tudo vai ainda mais longe: deve ter sido lá pelo século XX – sim, ainda temos registros históricos desse momento – quando o mundo viu surgir o conceito de Welfare State, o tal do Estado do bem estar social. Surgiram os tais direitos de segunda geração, também chamados prestacionais, ou seja, agora que a humanidade estava toda ferrada, castigada pelas guerras do século XX, o governo deveria fazer por onde e ampará-la. Ia-se pelo ralo aquele conceito do Adam Smith de que a mão invisível do mercado consertaria todas as coisas, e que o Estado jamais deveria intervir. A iniciativa privada dava lugar ao Estado em questões sociais, tais como educação e saúde. Isso somado ao absurdo avanço tecnológico que o mundo testemunhou a partir daquele século, muito mais do que todos os outros séculos somados e elevados ao quadrado, que permitiu que se descobrisse curas pra doenças antes tidas como incuráveis, métodos de rejuvenescimento da pele, e de prolongamento da vida etc.

Mas nós não estávamos satisfeitos: queríamos mais. Viver até os oitenta anos não era mais nada de especial – todos viviam. Vamos até os cem anos. Dos cem, vamos até os cento e dez, e assim por diante. Até um ponto em que se viu que poderíamos prolongar oquanto fosse as nossas vidas, ainda assim estariámos enclausurados em um corpo que não adiantasse o quanto as técnicas de rejuvenescimento permitisse, se tornaria cada vez mais caquético, eis que a natureza, nesse sentido, é uma força incontrolável, impossível de ser detida – talvez apenas retardável, como pudemos perceber nos primeiros anos.

Não bastava mais retardar o envelhecimento natural de nossas células, eis que um dia elas se desgastariam de qualquer jeito. Os átomos que compõem nossas células, que compõem nosso corpo, se cansariam um dia de cumprir sempre aquela mesma função, e partiriam em busca de outros átomos para formar novas moléculas e possivelmente novas células de um novo organismo. Descobriu-se então que a melhor forma de evitar isso tudo seria descobrir uma forma de nos eternizarmos. Foi o que fizemos: criamos corpos sintéticos, que não envelheceriam na mesma proporção que nossos frágeis corpos que Deus nos deu. E ainda assim quando estivessem velhos e frágeis esses corpos, tais como os corpos dos velhos de outrora, descartaríamos, como se descarta a um copo de plástico após saciar-se a sede.

E assim fizemos: transferimos nossos pensamentos, nossas ideias, valores, amores, amizades, e tudo o mais que nos fazia humanos a um corpo frio e sem vida, ao qual trataríamos de avivar e aquecer.

Primeiro a humanidade escolheu quem deveria fazê-lo: houve uma grande seleção, envolvendo as maiores nações do planeta, que indicou seus maiores pensadores, líderes, os mais respeitáveis enfim. Houve entre estes quem se opusesse, mas a grande maioria foi favorável ao projeto. Afinal, a vaidade neste momento falava mais alto do que muitas convicções pessoais e religiosas.

Com o tempo, barateou-se o procedimento, e todo o tipo de pessoa pode fazê-lo, por uma bagatela. Claro que era uma bagatela para os países do norte, eis que para muitos países subdesenvolvidos – mesmo depois de séculos, não conseguiram se livrar de tal alcunha – ainda era uma fortuna. Os resistentes, a quem me referi no começo dessa carta, são em sua maioria oriundos destes países, pois que além da questão financeira envolvendo o procedimento, ainda há o fato de que em sua maioria são países que possuem um apego à religião, a forças místicas que segundo suas crenças dominam o universo. Por isso mesmo entendem ser isso tudo uma afronta aos seus credos.

Àquele tempo eu não cria em Deus algum. Hoje me arrependo disso. Digo isso porque, assim que se foi barateando o custo do procedimento, fui um dos primeiros a buscá-lo. Depois de um tempo, já se via propaganda na TV a respeito, outdoors espalhados pelas principais avenidas das grandes capitais ao redor do mundo; um grande comércio surgiu a partir disso tudo. Grandes empresas farmacêuticas envolvidas, muitos lucros às custas de trabalhadores que sequer tinham condições de realizá-lo em si mesmos.

Fiz o procedimento e hoje, alguns séculos depois – tempo que sequer sei precisar, pois passei muito tempo ocupado em fazer tudo que pudesse fazer, o que meu modo limitado de vida pré-procedimento jamais me permitiria – vejo o vazio que tudo isso representa. Não deixei aqui na terra legado algum; nem quis fazê-lo durante muito tempo, já que imaginava que meu maior legado seria eu mesmo, fisicamente eternizado.

Com isso, não apenas eu, mas todos os que se submeteram ao procedimento passaram a viver uma vida sem propósito, eis que não nos restava mais nada a fazer – até mesmo o nosso trabalho havia sido delegado às máquinas, que o faziam sem se cansar ou reclamar. Há algumas dezenas de anos atrás fui cansando e percebi que não havia mais nada a ser visto, que não havia novidade alguma na terra. Subvertemos a natureza e ela agora nos subverte, ao nos escancarar o fato de que não somos para sempre – ou não devemos sê-lo. Tudo deve estar em constante mutação.

Hoje cansado disso tudo, escrevo essa carta, que na verdade já se afigura póstuma desde a primeira letra, eis que morri há muitos anos atrás; esse que vos escreve é apenas um projeto de humano, há muito largado em um corpo que não é seu. Já troquei de corpo algumas vezes, pois como já disse, assim como nós deveríamos ser, esses corpos não duram pra sempre. Mas desta vez, depois já de muito tempo assim, não pretendo mais trocar. Não há como me desligar, ou morrer, no velho jargão humano pré-procedimento. Por conta disso, só me resta esperar. Espero até que a bateria acabe. As células cerebrais que mantém minha consciência viva não resistirão à falta de energia. Daí não terei mais como ligar-me e assim poderei finalmente descansar em paz.

Minha porção ficção científica, aliada a um estranho surrealismo kafkiano me permitiram escrever esse texto. Tá, não é grande coisa, mas já tá melhor que Guerra Dos Mundos, não?

segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

Quisera eu...



“Corria o ano de 1911. Vejam vocês: — 1911! O bigode do kaiser estava, então, em plena vigência; Mata-Hari, com um seio só, ateava paixões e suicídios; e as mulheres, aqui e alhures, usavam umas ancas imensas e intransportáveis. Aliás, diga-se de passagem: — é impossível não ter uma funda nostalgia dos quadris anteriores à Primeira Grande Guerra. Uma menina de catorze anos para atravessar uma porta tinha que se pôr de perfil. Convenhamos: — grande época! grande época!

Pois bem. Foi em 1911, tempo dos cabelos compridos e dos espartilhos, das valsas em primeira audição e do busto unilateral de Mata-Hari, que nasceu o Flamengo. Em tempo retifico: — nasceu a seção terrestre do Flamengo. De fato, o clube de regatas já existia, já começava a tecer a sua camoniana tradição náutica. Em 1911, aconteceu uma briga no Fluminense. Discute daqui, dali, e é possível que tenha havido tapa, nome feio, o diabo. Conclusão: — cindiu-se o Fluminense e a dissidência, ainda esbravejante, ainda ululante, foi fundar, no Flamengo de regatas, o Flamengo de futebol.

Naquele tempo tudo era diferente. Por exemplo: — a torcida tinha uma ênfase, uma grandiloqüência de ópera. E acontecia esta coisa sublime: — quando havia um gol, as mulheres rolavam em ataques. Eis o que empobrece liricamente o futebol atual: — a inexistência do histerismo feminino. Difícil, muito difícil, achar-se uma torcedora histérica. Por sua vez, os homens torciam como espanhóis de anedota. E os jogadores? Ah, os jogadores! A bola tinha uma importância relativa ou nula. Quantas vezes o craque esquecia a pelota e saía em frente, ceifando, dizimando, assassinando canelas, rins, tórax e baços adversários? Hoje, o homem está muito desvirilizado e já não aceita a ferocidade dos velhos tempos. Mas raciocinemos: — em 1911, ninguém bebia um copo d’água sem paixão.

Passou-se. E o Flamengo joga, hoje, com a mesma alma de 1911. Admite, é claro, as convenções disciplinares que o futebol moderno exige. Mas o comportamento interior, a gana, a garra, o élan são perfeitamente inatuais. Essa fixação no tempo explica a tremenda força rubro-negra. Note-se: — não se trata de um fenômeno apenas do jogador. Mas do torcedor também. Aliás, time e torcida completam-se numa integração definitiva. O adepto de qualquer outro clube recebe um gol, uma derrota, com uma tristeza maior ou menor, que não afeta as raízes do ser. O torcedor rubro-negro, não. Se entra um gol adversário, ele se crispa, ele arqueja, ele vidra os olhos, ele agoniza, ele sangra como um césar apunhalado.

Também é de 1911, da mentalidade anterior à Primeira Grande Guerra, o amor às cores do clube. Para qualquer um, a camisa vale tanto quanto uma gravata. Não para o Flamengo. Para o Flamengo, a camisa é tudo. Já tem acontecido várias vezes o seguinte: — quando o time não dá nada, a camisa é içada, desfraldada, por invisíveis mãos. Adversários, juizes, bandeirinhas tremem então, intimidados, acovardados, batidos. Há de chegar talvez o dia em que o Flamengo não precisará de jogadores, nem de técnicos, nem de nada. Bastará a camisa, aberta no arco. E, diante do furor impotente do adversário, a camisa rubro-negra será uma bastilha inexpugnável.”

Nelson Rodrigues

Publicado originalmente na antiga Manchete Esportiva, no dia 26/11/1955.
Quisera eu ter escrito este texto. Mas ele foi escrito por um dos maiores escritores do país, e fluminense roxo. Parabéns ao Flamengo. Ah, e parabéns também ao Vasco, Botafogo e Fluminense, que estarão na primeira divisão do ano que vem, engrandecendo o futebol carioca e brasileiro como um todo.

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

Marco Zero

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25 de março de 2009. Às 14 horas, consultório do Dr. John Cole, no terceiro andar do Hospital Geral do Queens. Com certeza não é o melhor oncologista que há em Nova York, mas provavelmente o melhor que se poderia obter com o plano de saúde oferecido pela prefeitura aos seus policiais.

Jim Anderson, policial, 45 anos de serviço pela cidade de Nova York, sente-se completamente impotente. Sentado diante da TV sintonizada em um canal de notícias, uma edição da New Yorker da semana passada e uma enfermeira que, completamente alheia à sua desesperadora situação, calmamente lixa as unhas em pleno balcão de atendimento, ele pensa que de nada lhe adianta agora todo o seu treinamento levado a cabo por anos na academia policial, sua experiência no trato com criminosos no dia-a-dia das ruas. Pensa dessa forma porque não há o que possa fazer, apenas esperar. Esperar pelo próprio Dr. Cole, que agora adentra a sala, com o resultado do exame que fizera outro dia em mãos. O resultado não foi outro diferente do esperado: Jim Anderson estava com câncer.

A moléstia que agora que lhe afligia era decorrência provável da exposição a elementos tóxicos decorrentes da queima dos mais diversos materiais, tais como ferro, plástico, concreto, entre outros, além de substâncias reconhecidamente nocivas, como o amianto. Essa exposição decorreu do fato heróico que marcara sua vida até então, seu maior motivo de orgulho: o trabalho na busca de sobreviventes no Marco Zero, após a queda do World Trade Center.

Lembra até hoje do fatídico dia em que todo o contingente policial que havia na cidade fora deslocado até o local da tragédia, na esperança de encontrar ali respostas para aquilo do qual, atônitos, foram meros espectadores. Lembra com exatidão do momento em que, cercado de concreto esfacelado e metal retorcido, pouco podia ver à sua frente. Podia apenas ouvir. E das vozes aflitas ressonantes que surgiam por entre os escombros, o policial Anderson tirava suas forças para seguir buscando, escavando, à procura de vidas, como se a sua própria dependesse disso.

Mal sabia ele que o fato que mais marcara sua vida até então lhe deixaria uma última e indelével marca: o câncer fatal, que lhe consumiria em brevíssimo tempo. Restava-lhe muito pouco tempo para aproveitar a vida e fazer tudo aquilo que não fizera até então.

***

27 de julho de 2002. Carlos Hernandez irrompe a sala em direção à cozinha, onde se encontravam seus pais, Pablo e Cristina, e seu irmão mais novo, Juan, para dar-lhes a notícia que acabara de receber. Tinha em mãos uma carta enviada pelo Exército dos Estados Unidos, convocando-o a servir à pátria, na busca pelos terroristas responsáveis pelos atentados de 11/09.

Apesar do que os nomes possam levar a crer, Carlos e Juan são cidadãos norte-americanos, nascidos na cidade de Nova York, onde moram até hoje, no Bronx, ao norte da cidade. Já seus pais, também cidadãos norte-americanos, só que, para os olhos de parte da sociedade, de segunda classe. Eles vieram há alguns anos de Porto Rico, pra tentar sucesso na terra das oportunidades que lhe demonstrava ser a América. Muito jovens e recém-casados quando aportaram na cidade, à sombra da estátua da liberdade, jamais conseguiram a tão almejada ascensão social que esperavam obter.

Pois a notícia trazida por Carlos à sua família causou um certo estarrecimento. Seus pais estavam atônitos ante tal fato: seu filho mais velho, de apenas 19 anos recém completados havia sido convocado para lutar pelos Estados Unidos da América no Afeganistão, em busca dos terroristas responsáveis pelo atentado às Torres Gêmeas e à sede do Pentágono, além daquele avião que caiu sobre a Pensilvânia, pouco mais de um ano antes. Sabe-se lá o que poderia lhe esperar por lá. As histórias que ouviam, ou as matérias que viam passar na TV davam conta de coisas horríveis que poderiam acontecer aos soldados, como atentados com homens-bomba, sequestros etc.

Mas para Juan, do alto de seus catorze anos, nada disso era importante, pois tudo era menor ante a possibilidade de se defender a nação, de se propagar pelo mundo afora o modelo de liberdade norte-americana, com direitos iguais para todos, livre expressão de pensamento, entre outras conquistas do mundo livre ocidental. Levar aos países regidos por regimes despóticos e anti-democráticos o modelo de sociedade justa e igualitária que são, em seu modo de ver as coisas, os Estados Unidos. E justamente o seu irmão, seu melhor amigo, seria para ele o herói responsável por capitanear essa incursão pelo mundo árabe, que tal qual o Capitão América, lavaria com sangue a honra da América.

Enquanto isso, na TV, o presidente George W. Bush discursava à nação, afirmando que tomaria todas as precauções possíveis no iminente ataque ao Iraque, além da busca aos terroristas no Afeganistão, e atuaria com os aliados “lado a lado”, para evitar que nações mal-intencionadas possam causar distúrbio à paz mundial.

***

25 de outubro de 1995. No quarto 507 da maternidade de um luxuoso hospital ao sul de Manhattan nascia Yussef Abdalaziz. Filho de um casal de egípcios, que moravam em Nova York há apenas um ano e meio, por conta da empresa em que o seu pai, Hamzah, trabalhava, uma companhia petrolífera com sede em Londres, mas escritórios em diversas cidades ao redor do mundo.

Para essa família a América de fato se descortinava como uma terra de grandes oportunidades. Há alguns anos o casal já havia deixado o Egito para trabalhar em Londres, onde eles conseguiram obter um padrão de vida muito mais elevado do que jamais tiveram enquanto estavam no Cairo. Mas em nada se compara ao que viviam nos EUA. Havia sido promovido a um cargo de destaque dentro da companhia e mandado simplesmente para um dos maiores escritórios fora da Inglaterra, justamente na 5ª Avenida, no coração de Manhattan, quiçá do mundo.

Imaginavam um mundo de possibilidades para seu filho, que acabara de nascer: estudaria na Columbia University, pelo desejo da mãe, pois assim ficaria mais perto de casa. Por isso mesmo, nem se interessava muito pela carreira que seguiria. Já o pai imaginava o filho cursando direito em Harvard, ou talvez Yale. Seria mais distante, mas isso não é nada quando tudo se resumiria a poucas horas dentro de um carro, ou de um avião, dependendo de onde fosse. O pequeno Yussef sequer poderia imaginar o mundo que lhe esperava fora daquele quarto, mas seus pais já imaginavam, e faziam planos, a respeito da vida próspera que teria.

***

A história que começou logo acima gira em torno de três pessoas que de um modo ou de outro tiveram suas vidas afetadas pelo atentado de 11 de setembro. Porquê o 11 de setembro, algo tão distante das nossas realidades – pelo menos da minha – eu não sei. Mas se Chico Buarque escreveu Budapeste sem nunca ter pisado lá, acho que eu posso tentar também.

Essa é a minha primeira experiência literária verdadeira. Não pretendo escrever um livro ou coisa parecida, mas pela primeira vez neste blog criar uma história que não se resuma, ou se prenda, às poucas páginas de um post, mas se perpetue por vários outros. Por isso conto com a ajuda de vocês, leitores, para dar um rumo a essa história; se está boa, ruim, se acaba no próximo post ou não acaba tão cedo, espero contar com vocês para decidir. Para isso, espero ter a opinião de vocês aqui no blog, ou no orkut e twitter. Abraços.

sábado, 24 de outubro de 2009

Como ficar famoso e aparecer na TV...


Alguém dormindo no ônibus, upload feito originalmente por Renan Costa.

Você deve estar se perguntando o que essa foto tem a ver com esse título, mas eu chego lá. Era por volta de 21h30, se não me falha a memória. Caía uma chuva torrencial. O ônibus em que estava passava nesse exato momento pela praça do pedágio da ponte Rio-Niterói. Eu comemorava, pensando que poderia chegar alguns minutinhos mais cedo em casa - pra quem faz essa viagem todo santo dia (Niterói - Rio - Niterói), alguns minutos de diferença é lucro - já que na semana anterior eu tinha passado pelo mesmo local por volta de nove e vinte, e por isso consegui chegar em casa cedão.

"Dez minutos de diferença não é quase nada", pensei. "Se o trânsito estiver igual ao da semana passada chego em casa rapidinho". Qual não foi a minha surpresa ao sair da ponte e subir aquele viaduto que leva à Marques de Paraná - e consequentemente à Icaraí e Santa Rosa - e depara-me com o trânsito todo parado. Carros e mais carros iam chegando e parando ali, naquele exato lugar sem escapatória.

Como disse, não era muito mais que 21h30, e ali fiquei por um bom tempo. A forte chuva que caía - já comentei sobre a chuva? - repentinamente cessou, reduzindo-se a meros chuviscos, mas ainda assim não havia roda que se movesse. Ali fiquei por um bom tempo, imaginando que se tratasse de um acidente, e que dentro de muito em breve o carro acidentado seria retirado, e as pistas liberadas, assim como o tráfego de carros. Mas que nada.

Algumas pessoas mais esbaforidas não conseguiram esperar sequer meia hora dentro do ônibus - de fato, a possibilidade de ter que esperar horas sentado em um ônibus não deve nada a qualquer método chinês de tortura. Mas pensei que tudo ia se resolver dentro de poucos minutos, que o trânsito se normalizaria e que aquelas pessoas se arrependeriam depois. Que nada: eu me arrependi de não ter levantado antes.

Eis que, uma hora e meia depois de sentado no mesmo banco do ônibus - pois é, quase acabei com a bateria do meu celular, na tentativa de ouvir todas as músicas possíveis, e quando findas estas, todas as rádios que tivessem algo interessante, o que nestas condições se mostra algo quase impossível -, sem que este se movesse um milímetro sequer em direção à minha casa, decido levantar e seguir viagem a pé. "Não é possível que um acidente de trânsito atrapalhe tanto a vida das pessoas", pensei.

Levantei-me e segui na mesma rua, até mesmo para saber do que se tratava, que impedia tanto assim o prosseguimento regular da minha viagem. O cenário que encontrei era devastador: carros tortos no meio da rua, em uma tentativa de retornar - vã, eis que a fila de carros atrás já se estendia até a ponte - e a rua completamente alagada, em nível tal que sequer os ônibus se atreviam a atravessar.

Rapidamente encontrei uma rua paralela que estava seca e segui o caminho das pessoas que, assim como eu, largaram seus lugares nos ônibus e decidiram seguir a pé. A imagem lembrava desses filmes de zumbi ou coisa do tipo, em que a cidade está completamente vazia, e você só vê a fila de cidadãos incautos, ainda não contaminados pelo suposto vírus que dizimou toda a sociedade, tentando buscar um abrigo, mas na verdade caminhando para a morte certa. Ainda bem que era a vida real...

Dalí a história não apresenta nada de mais: segui até o terminal de ônibus no Centro de Niterói - ou seja, andei pra c@#$%&*aralho - e peguei um 53, que por sorte estava parado na hora em que cheguei no terminal. As pessoas na minha frente na fila para pegar o ônibus me disseram que estavam há 50 minutos esperando o ônibus e nada - pelo menos dessa eu escapei.

Ainda peguei um trânsito na Gavião Peixoto, em Icaraí - detalhe: já era quase meia-noite - mas consegui chegar em casa, são e salvo, por volta de meia-noite e quinze, mais ou menos.

Acaba aí minha história. Mas o que isso tem a ver com o título lá em cima? Das duas uma:

1) Fui acordado pela minha mãe, quando ainda passava "Bom Dia Rio" - como se não bastasse a hora em que eu tinha ido dormir -, porque eu apareci na TV. Justamente na matéria em que mostravam os desastres ocorridos na cidade de Niterói durante o temporal de segunda-feira. Por conta do crescimento desenfreado que a cidade de Niterói teve nos últimos anos, com muitas construções, favelização etc, sem o devido acompanhamento pelo Poder Público - fosse restringindo o número de pavimentos dos prédios a um número adequado para a cidade, ou fiscalizando construções irregulares, ou alargando as ruas e cuidando do sistema de captação de água das chuvas - eu acabei aparecendo na TV como vítima disso tudo, coitado.

Ou

2) Minha total falta de criatividade em criar um título decente para esse post, que de fato demonstrasse toda a minha insatisfação com isso tudo que eu escrevi em cima a respeito da incompetência de nossos governantes.

Bem, você decide.

Só pra constar minha set list enquanto esperava no ônibus, assim como também no 53 (alguns discos eu ouvi inteiros):
Quatro, Los Hermanos
Afro-Sambas, Baden Powell
Abbey Road, The Beatles
OK Computer, RadioHead
África Brasil, Jorge Ben
Iê-iê-iê, Arnaldo Antunes
Cartola (1974), Cartola.

segunda-feira, 21 de setembro de 2009

O que você vai ser quando crescer?

Há algum tempo atrás, a mãe do pequeno Rafael perguntou-lhe preocupada com o garoto que possuía amigos imaginários em excesso e passava dias se divertindo com eles:

- O que você vai ser quando crescer?

- Eu vou ser o Michael Jackson!

Porém, após assistir o clipe de “Bad” do seu ídolo, o garoto percebeu que, mesmo sem entender uma palavra em inglês, seu astro dizia: “Eu sou mau!”. O menino não queria ser mau! Ele queria ser amigo faz crianças e das baleias como o Michael dizia ser. Assim, ele desistiu da idéia e teve a sua primeira decepção.

Sua vingança veio com o tempo.....

Como o comportamento do garoto que criava seu próprio mundo não mudava, novamente veio a pergunta:

- O que você vai ser quando crescer?

- Palhaço ou mágico!

As longas horas que passara na frente da TV assistindo o Programa do Bozo já haviam afetado o seu córtex gravemente. E assim começa a sua segunda decepção...

Ao assistir uma apresentação do palhaço Carequinha na primeira fileira, ficou encantado com o palhaço Marmelada. Ele arrancava cigarros das orelhas da sua assistente usando um perigoso chicote. Como todo ser humano um dia ele errou e chicoteou o cotovelo do pequeno Rafael. Todo o meu desapontamento se resumia naquele belo hematoma. E quanto ao mágico, a falta de coordenação motora do garoto “ambicanhoto” sempre foi um obstáculo em seu sonho de fazer sucesso no circo.

O tempo passou e a sua admiração por Galileu e Einstein fizeram com que ele um dia dissesse:

- Eu vou ser engenheiro!

Não sabia as graves conseqüências que isso traria para a sua vida...

Durante a sua tentativa de ser o que queria, ele aprendeu que cálculo a gente tem que fazer pelo menos 2 vezes para aprender direito, conheceu o cacique da Tribo Bó, uma menina que sabe empurrar um Chevette com nenhuma outra, uma índia do caramujo e sua fabulosa batida de pêssego, uma alemã nascida em Natal com cabeça de jaca, aprendeu que chutar o calcanhar de um gordinho pode ser muito divertido, foi apresentado ao terror dos 7 mares, ao cientista do Coelho, que rock de verdade é do AC/DC, punk rock roots quem faz mesmo é o Santa Claus, comprovou com os próprios olhos que a lenda do Saci existe, aprendeu que os pedalinhos da Lagoa fecham às 1h da manhã, que um homem que quer uma mulher olha nos olhos dela e diz “Levanta! Levanta agora!”, quanto está faltando uma carta para completar o seu Full House é necessário mentalizá-la para que ela apareça, que a mistura de Red Label, cerveja, vodca e pepsi pode fazer a Lua girar mais rápido, que Steven Segal é o cara, que devemos declarar guerra aos peruanos e que empurrar argentinos pode ser perigoso.

Hoje depois de tudo isso, ele não sabe se o mais importante foi aprender que V=RI ou que o “Ás é sempre o Ás”.


OBS.: texto do amigo "Julinho" Menezes, novo engenheiro...

terça-feira, 25 de agosto de 2009

O sentimento mais sublime

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Quando se encontra um amigo, se eleva o coração. Porque tem gente que nasce para ser mão estendida, força, garra. Tem gente que tem um “quê” a mais. Sabe aquele tipo que dá vontade de estar por perto? Pronto, chega e fica, engendra-se de uma tal maneira inexplicável, se torna mais do que um fato consumado. Basta; sua presença é a questão. Torna-se tudo tranquilo, faz a gente ter a certeza de uma alegria a mais, uma risada mais, um copo a mais, “ei trás mais um”, “fica mais um pouco”, “não vai agora”. Traduzir qualquer momento ao lado, torna impossível. Irradia amor e simplicidade e não digo aqui que isso tudo é perfeição, longe disso. Resumo em afeto e compreensão. É um querer ser, estar, ficar, permanecer. É o sentimento nobre, mas não porque vem de cima para baixo, mas porque quer ser igual, quer ser recíproco. Tenta ser ouvido, boca, cheiro, sorrisos, gargalhadas, lágrimas. É um chorar junto, um sofrer a mais, uma parceria sugestivamente bela e ingênua, como tudo deve –ou deveria – ser. A junção de certezas e incertezas, o melhor acontecimento que existe, a irradiação sublime de algo que só Deus pode explicar. É o divino, o maravilhoso, é a pureza e o carnaval, a ligação perfeita entre duas ou mais pessoas que se entendem e desentendem na mesma fração de segundos. Dicotômica essa tal de amizade, torna-se essencial, digo, extremamente ortodoxa e pródiga, do começo ao fim. Verdadeira na mais pura verdade, não se finda em qualquer dia, hora, lugar. Está além dos extremos de corpos que se encontram, está no amor das almas que, mesmo distantes, conectam-se umas as outras, por algo ilustre que chamamos de amor. E o amor de uma amizade não é a angustia de não saber o amanhã, mas a certeza do hoje, é o que nos torna ser, o que somos.

“Amigo não se faz, reconhece-o”. (Vinícius de Moraes)

O texto acima é uma contribuição de Leda Agnes, em homenagem à Teresa.

quinta-feira, 16 de julho de 2009

Um pequeno passo para o homem…

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20 de julho de 1969 foi um dia que entrou para a história da humanidade, pois pela primeira vez o homem pisou na lua. Há quem não acredite nisso, achando que tudo não passou de uma teoria da conspiração, forjada pelo governo estadunidense para assumir a ponta na corrida bélica com a União Soviética.

Seu Jonas Canário também não acredita que nesse dia o ser humano tenha pisado pela pimeira vez na lua. Não é que ele dê ouvidos a essas teorias conspiratórias, não é isso; a questão é que para ele o homem já pisara na superfície lunar bem antes.

Do alto de seus 90 anos, ele se lembra bem da primeira vez que o homem pisou na lua; não há como esquecer, afinal, ele fora justamente o segundo a realizar tal feito. Estava lá, saindo da cápsula lunar quando o outro astronauta da missão espacial se antecipou, e saiu na sua frente. Seu Jonas prefere nem lembrar, eis que o impulso dado por esse outro astronauta fora tão forte que ele não conseguiu se estabilizar no vazio, devido à falta de atmosfera e a quase inexistente gravidade da lua. Com isso, o cabo que precariamente o prendia à cápsula se soltou, e ele deve até hoje estar vagando por algum lugar do espaço, à procura de uma órbita que lhe atraia.

Isso tudo ocorreu por volta de 1959, dez anos antes da missão espacial norte-americana. O governo brasileiro, no auge da euforia que envolvia aquela ideia de “cinquenta anos em cinco”, decidiu entrar na corrida espacial, meio que na surdina. Juscelino Kubitschek, então presidente do Brasil, achava que, uma vez conquistado o espaço, o Brasil poderia galgar melhores posições no cenário internacional e ocupar a posição de superpotência, ao lado de EUA e URSS.

Sem que ninguém soubesse, foi conduzido pelo governo JK um ambicioso plano que levaria o Brasil à Lua. A construção de Brasília, criação de estradas, implementação de fábricas etc, eram apenas um caro disfarce, factoides, para os olhos da imprensa. Nos EUA e na URSS, alguns anos depois, no auge da Guerra Fria, ninguém nunca questionou os valores envolvidos em suas respectivas missões espaciais. Afinal, não se tratava de mero capricho científico, mas demonstração de poder e força sobre os demais países. Mas no Brasil, que no fim das contas não tinha nada a ver com essa história, gastos exorbitantes como estes seriam muito mal-vistos pela opinião pública. A solução, portanto, foi colocar tudo na conta de Brasília mesmo. Vê-se que desde então a cidade já mostrava vocação para a prática de atos secretos.

brasília construção
A conta dos devaneios espaciais de JK foi parar, vejam só, na nova capital.

Imaginem só: Neil Armstrong, ao descer da nave e pisar em solo lunar, pronto para fincar a bandeira dos EUA, se depara com uma bandeira verde e amarela, já demarcando o território. Só que na verdade isso nunca ocorreu, pois que devido a questões referentes à rotação do planeta Terra, além de outras questões astronômicas que não sei direito, a missão brasileira pousou a quilômetros de distância do local onde anos depois pousariam os norte-americanos. Por isso, a bandeira brasileira permanece lá intocada, ainda com o mesmo amassado que tinha em 1959.

Por isso mesmo que seu Jonas não acredita que Neil Armstrong tenha sido o primeiro homem a pisar na lua. Aliás, quando Yuri Gagarin afirmou, em 1961, durante aquela que teria sido a primeira viagem tripulada ao espaço, que a Terra era azul, essa já era uma constatação que o próprio Jonas já havia feito dois anos antes. E ele insistia em repetir a seus amigos, na fila do supermercado, na mesa do bar, no banco da igreja, sem que ninguém lhe desse ouvidos.

Mas porque essa missão não foi revelada, e o ineditismo da conquista brasileira nunca foi exibido à humanidade, isso seu Jonas não sabe explicar direito. Sabe que a missão em si não foi exatamente um sucesso, até porque, dos dois astronautas mandados à missão – pilotos da FAB, com grande experiência, inclusive na Segunda Guerra Mundial, e voluntários para a viagem –, apenas ele retornou ao planeta Terra. Como já dito acima, seu parceiro nesta empreitada, se tudo ocorrera como ele afirma, deve estar agora em algum ponto do universo, no caminho entre o sol e plutão.

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Nosso caro Jonas sentado em cima da hélice, junto aos demais oficiais da FAB, no fim da 2ª Guerra Mundial.

Além disso, ainda no decorrer da viagem, entre o planeta Terra e a Lua, o equipamento responsável pela comunicação entre a nave e o comando da Agência Espacial brasileira fora irreversivelmente danificado, de modo que as conversas entre os dois astronautas e os técnicos que estavam aqui se tornaram impossíveis. Portanto, não há aqui na Terra qualquer registro do que teria ocorrido nessa viagem, como foi o pouso e o que os astronautas encontraram por lá.

Toda a missão a partir daquele ponto se deu às escuras. Seu Jonas agora só contava com seu ímpeto e espírito de aviador para que tudo desse certo em seu retorno ao planeta. Mas, por mais inspiradoras que essas palavras possam parecer, isso não foi suficiente. Não bastando todos os problemas dessa odisseia até então, agora ele teria de voltar, e sozinho.

Sem orientação alguma, seu Jonas tomou o comando da aeronave e rumou de volta à Terra. Aí se deu conta de que, sem qualquer orientação vinda do comando em terra, seus conhecimentos aeronáuticos teriam pouca ou nenhuma valia nesta situação. Mas ainda assim, não se fez de rogado; voltaria, para comprovar o sucesso da missão espacial brasileira, e assim lançar o Brasil a uma posição internacional até então inédita.

“Voa Canarinho!”, costumava dizer a si mesmo nessas situações de tensão. A reentrada na atmosfera fez com que ele repetisse como nunca essas palavras. Sua nave acabou por cair em meio ao Oceano Atlântico, perdido entre os arquipélagos de Fernando de Noronha e de São Pedro e São Paulo. Dali, nadou até que se fatigasse e fosse resgatado por uma embarcação de pesca, que o levou para Natal.

Na capital potiguar procurou por seus superiores, tentando relatar as agruras de sua viagem aeroespacial, mas entre os militares não havia quem soubesse de tal missão. Havia quem o conhecesse, mas de lembranças já quase esquecidas da Segunda Guerra – afinal de contas, seu Jonas não fora capaz de grandes feitos heroicos durante a guerra.

E até hoje, não encontrou ninguém que confirmasse sua história a respeito da missão espacial brasileira, em nenhum nível das Forças Armadas brasileiras, ou mesmo do governo federal. Todos reagem espantados às revelações de seu Jonas e ele próprio está convicto hoje que tudo não passou de um devaneio do então presidente da República Federativa do Brasil, e que levará para o túmulo toda essa história.

Em tempo: a opinião geral a respeito de seu Jonas Canário é que ele não bate muito bem da cabeça.

A história, não sei se você percebeu, é ficcional. Por isso, de antemão, já pedimos desculpas ao Canário da foto. Não, ele não é maluco, só nos emprestou o nome.

segunda-feira, 8 de junho de 2009

Além do que se ouve…

Era algo por volta de onze meia, já me encontrava na barca na volta para Niterói – contando o tempo no relógio, pois que ainda tinha um aniversário para ir. Mas felizmente consegui chegar a tempo e dar os parabéns às aniversariantes. No entanto, o que presenciara há pouco não me saía da cabeça.

Pois bem, pensei em começar esse texto do fim, e daí partir até chegar ao começo, mas vi que não sou tão bom nisso quanto imaginei. Então, com o perdão do pleonasmo, comecemos do começo.

Era quase 10h da noite quando a barca atracou na Praça XV. Exatamente a hora para qual estava marcado o evento, mas ao chegar lá, ainda demorou um pouquinho pra começar; estavam ainda afinando os instrumentos. Depois de um dia inteiro regado a samba e feijoada e amigos, e ainda outro aniversário pra ir, minhas pernas pediam apenas um pouco de descanso, mas tudo bem.

Por volta de 10h15, eis que ele adentra o palco, guitarra em punho apenas, inaugurando os trabalhos com “Passeando”, música que não poderia ser mais emblemática desta sua nova fase profissional, eis que, após uma larga introdução na guitarra, conta com estes poucos versos que transcrevo:

“E lá vai deus sem sequer saber de nós
saibamos pois
estamos sós”.

Pois desta vez, Marcelo Camelo estava só; não contava com seus hermanos no palco, mas apenas com uma banda de semi-barbudos (parece ser prerrequisito, ou pré-requisito*, fiquei na dúvida quanto à grafia correta), muito boa, aliás.

Mas ao contrário do que possa parecer, ele não foi imotivadamente abandonado por seus amigos – creia-me, eu entenderia bem se fosse o caso –, mas quis assim; a banda entrou em recesso, ele lançou um disco, e igualmente lançou-se em carreira solo. E pela primeira vez pude conferir in loco o resultado, e posso aqui afirmar, sem receio: no fim das contas, foi muito melhor do que eu esperava.

Fui para lá sem alimentar muitas expectativas a respeito do show, pois para mim, o disco solo dele (Sou) é bom – nada espetacular –, mas em nada se compara aos Los Hermanos. Mas admito que me surpreendi um pouco. O violão, que sobra no disco dele, foi trocado em algumas músicas pela guitarra, o que deu uma melhor dinâmica para a apresentação ao vivo.

E ele ainda consegue em algumas músicas o que no show dos Hermanos acontecia do início ao fim: ter a plateia cantando junto todos os versos. Isso aconteceu em algumas músicas dele, e em todas as poucas dos LH que ele cantou – essas, aliás, as pessoas presentes ao show já reconheciam com uns poucos acordes, podendo-se entreouvir frases do tipo: “é a música tal que ele vai tocar” ou “essa é dos LH”.

Aliás, o ponto alto do show para mim foi justamente uma música dos Los Hermanos, deixada justamente para encerrar aquela apresentação. Trata-se de “Além do que se vê”, uma bela música, mas que para mim sempre teve muito mais força ao vivo nos shows do grupo do que no disco.

Ele começa a canção no violão, sentado num banco e sendo levado pelas vozes na plateia, dando a entender que seria apenas uma versão acústica de uma de suas músicas, até que entra a banda (exatamente no momento em que se canta: “e a turma diz: assim é que se faz”), e no belíssimo momento instrumental, ele troca o violão pela guitarra e segue tocando com a banda. Nesse momento vê-se umas três guitarras no palco, mais teclado, baixo, percussão e trompete, fazendo um som fantástico, e levando os presentes a uma catarse sonora.

De repente, ele tira a guitarra de seus ombros, levanta-a sobre a cabeça como um troféu e agradece ao público presente simplesmente. Despede-se e vai embora, enquanto os músicos que o acompanham continuam naquela sinfonia no palco, até que, um a um, os músicos acenam para o público e se retiram. E nós, daqui de baixo, vemos a música se desconstruindo e o show acabando.

Realmente, foi melhor do que eu esperava. Descobri que o show está muito à frente do disco e vai, de fato, muito além do que se ouve naquela bolachinha.

O vídeo abaixo foi feito na Virada Cultural de SP – não achei nenhum feito no Viradão Carioca – mas vale a pena ainda assim, porque deixa um gostinho de como foi no sábado.

*minha dúvida consiste em que já há, na língua portuguesa, antes mesmo do novo acordo ortográfico, pré-requisito e prerrequisito, só que este último era muito pouco utilizado, pra uma situação específica, enquanto o outro era mais genérico. Agora como fica? Isso podia ser um outro post, mas agora deixa pra lá…

quinta-feira, 28 de maio de 2009

Democracia do Samba

quinta do parque

Depois de um breve tempo afastado das rodas de samba e congêneres, tive há duas semanas a oportunidade de ver in loco a apresentação da Velha Guarda da Portela. Apesar de sem vontade alguma de sair naquela sexta e completamente fatigado, fisica e psiquicamente, eis que decidi comparecer ao evento. Não que a Velha Guarda da Portela seja alguma novidade – já os havia visto antes – mas naquele dia em especial me emocionou.

Fiquei perto da mesa observando aqueles senhores cantando e contando suas vidas, naquelas músicas de poesia simples, porém muito bela. Mas a inspiração para esse post veio de algo que li uma vez no jornal, se não me engano, a respeito do samba e de como este ritmo musical tão característico do Brasil é também tão democrático, e talvez resida aí o motivo de tamanha popularidade entre os trópicos.

Explico: o samba, assim como grande parte dos ritmos musicais, fala de amor, relacionamentos etc e tal, em grande parte de suas músicas. Lógico, há também no samba muito do que chamaria de “metamúsica” ou “metassamba” (inventei isso agora), que são sambas que falam do próprio samba, talvez como uma afirmação do ritmo, que foi criado por escravos e muito perseguido no começo – mas isso é história pra outro dia.

A questão é que, ainda que fale de amores, traições, dores-de-cotovelo e afins – e ainda tem a cuíca, que apesar de essencial, tem um som triste –, assim como diversos outros gêneros musicais, como o tango, por exemplo – as canções de Gardel são tristíssimas – o samba sempre evoca no incauto cidadão que esteja por perto uma incontrolável vontade de sair cantando por aí, mesmo que não se saiba a letra. Estar ao redor de tamborins, cavacos e violões acaba fazendo isso com a grande maioria das pessoas – é bem verdade que há aquelas que nem se coçam, mas aí ou é ruim da cabeça ou doente do pé.

E o motivo disso é simples: o “lá lá lá”. Vocês podem achar que é perseguição do blog, afinal o “lá lá lá” já foi tema de outro post antes. Mas não é! É inegável que isso faz toda a diferença, pois permite que o samba seja alcançável por qualquer pessoa, independente de saber a música ou não, de classe social, ou qualquer outro conceito que se queira utilizar. Nem preciso falar do sentimento em si que o “lá lá lá” causa nas pessoas em geral – isso já foi bastante exposto no outro post.

Mesmo que se trate da música mais triste, com a letra mais devastadora, em termos sentimentais – e olha que exemplos não faltam, em compositores tais como Nelson Cavaquinho, Cartola, Paulinho da Viola, Jovelina Pérola Negra, Jorge Aragão, até mesmo Zeca Pagodinho, e por aí vai –, ainda assim, o cantor consegue fazer com que todos o acompanhem, ainda que seja apenas na parte do “lá lá lá”; é justamente aí que reside o conceito democrático desta manifestação musical brasileira, que normalmente faz com que os demais ritmos não garantam tamanha satisfação popular: todo bom samba que se preza tem um bom “lá lá lá” – ainda que em suas versões originais não as tenham, em uma roda de samba acabam ganhando –, que dura tempo suficiente, ainda que breve, pra fazer a pessoa se levantar da cadeira e cantar junto.

Além disso, há a beleza que tais composições apresentam, com poesias à altura dos maiores trovadores e harmonias e arranjos à altura dos maiores maestros, feitas, no entanto, por gente simples, e que durante muito tempo de suas vidas não podiam contar com a música como seu principal ofício e ainda assim conseguiram deixar uma marca indelével na cultura brasileira. Também acho que isso talvez seja tema pra um outro post, que por si só, poderia encher uma página deste blog. Mas não há como negar que quando pensamos nessas pessoas, como os compositores já citados, ou a Velha Guarda da Portela, da Mangueira, ou seja de que escola for, devemos sempre respeitar quem soube chegar onde eles chegaram.

Putz! Ouvindo muita coisa agora ao mesmo tempo… Pra citar algumas: “Pra fugir da saudade”, de Paulinho da Viola, “Pressentimento” de Elton Medeiros, “O poder da criação”, de João Nogueira, entre outras. Mas pra hoje fico com “Sorriso aberto” da Jovelina Pérola Negra, na versão do Fundo de Quintal, que acho que representa bem esse tipo de samba com letra triste, mas que ao mesmo tempo é também um exemplo do “metassamba” que me referi acima.

domingo, 12 de abril de 2009

Começo do fim…

família_osgemeos

Acordei cego. Abri os olhos hoje, ao acordar, e não vi nada. Um breu completo. Fui tomado por um medo súbito, e uma aflição: o que significava isso? Seria essa uma condição permanente, ou apenas um mal temporário? Apesar do desespero em que me encontro, rogo a Deus para que não seja um castigo divino – Ele castiga os seus? – e que tudo volte ao normal.

Grito por socorro, mas ninguém vem a mim. Não há ninguém na casa que possa me acudir nesse momento de angústia, de modo que me resta apenas erguer-me da cama, e tateando pelo cômodo, entre as lembranças que eu tinha das coisas que ali se encontram, procurar alguém que possa me ajudar.

Nesse momento, levanto-me, e com uma das mãos na cama, e a outra na cômoda lateral, vou observando com a ponta dos dedos o que me cerca, tentando lembrar como eram as coisas, onde estavam e do que deveria me desviar, para não ferir-me.

Teria sido mais fácil se tivera dormido em meu próprio quarto. Mas ontem, depois de alguns anos, retornei à casa dos meus pais, que fora minha também durante muito tempo. Fui fazer uma visita, daquelas burocráticas, sabe?, que se faz umas poucas vezes ao ano, em períodos como esse da Páscoa, ou quem sabe no Natal também. Após tanto tempo, aquele quarto que um dia tinha sido meu mantem-se intocável, com a minha cama, minhas fotos, meus armários – agora vazios – e minha juventude.

Após uma tarde em família, cercado por pessoas que hoje me parecem tão distantes, fui ficando, enquanto todos os outros se dirigiam às suas casas. Apesar do incômodo que me abraçava por todo o tempo em que estive na casa, mais forte era a sensação de familiaridade, de que aquilo, de certo modo, me pertencia também – talvez por isso, não tenha ido junto com o tio Jonas, quando este me ofereceu carona. Mas, na verdade, deveria ter-me ido embora, só que a essa hora já era tarde: a chuva repentina que caiu do lado de fora da casa me impediu; pingos grossos, que chegavam a fazer um estridente barulho na calha e vento forte, que uivou à minha janela por toda a noite. Meus pais prontamente ofereceram-me aquele que fora meu quarto um dia, insistindo que eu deveria ficar, que não me atrevesse a ir embora com uma chuva daquela.

Pois bem, a insistência dos meus pais e o mundo que desabava sobre nossas cabeças – como se, tal qual os gauleses, devêssemos ainda hoje temer algo do tipo – do lado de fora foram suficientes para que eu revisse meus planos, e passasse uma noite lá – algo que há muitos anos não fazia. No meu quarto, lembranças que há muito quis reprimir, permaneciam intocáveis, e a noite me parecia mais longa do que o normal.

Não sei ao certo quando isso se deu, só sei que em algum momento de minha adolescência havia me cansado; tive que sair de casa para poder me reconhecer, me perceber. Éramos tão unidos, estávamos sempre tão juntos, que não mais me reconhecia como indivíduo – precisava sair desse ambiente, me encontrar.

A oportunidade se fez quando passei para a universidade, em outra cidade, onde agora trilharia meus próprios caminhos. Saí de casa sem dor, sem remorso algum, procurando me achar, numa busca até então em permanente inconstância. Agora, cá estava eu, derrubando fotos de meu passado – da minha primeira comunhão, a qual reconheci por causa da moldura, que eu mesmo escolhi quando era criança, mas só tempos depois percebi o quão feia era. Assim como aquele meu carrinho, lá na estante, um dos primeiros brinquedos do qual tenho quaisquer lembranças. Ganhei muitos outros depois; de fricção, controle remoto etc, mas aquele sempre fora o meu favorito.

Estudei, me formei e hoje trabalho e vivo um pouco longe daqui, dessa casa e dessas lembranças. Em todo esse tempo, nunca me fizeram falta; pelo menos assim imaginava. Neste momento todas elas me cercam, e eu, que tanto fiz para esquecê-las, nunca fui delas tão dependente quanto agora.

Com a ponta dos dedos vou vendo e reconhecendo tudo aquilo que deixei pra trás, e percebendo o quanto isso é, de fato, importante pra mim. Com o tato, vejo minha infância, meus machucados, meus brinquedos, meus amigos da rua, minha adolescência, o primeiro beijo, a primeira namorada, o primeiro show e muitas outras primeiras coisas que a gente só vive nessa época.

De repente, chego à porta, alcanço a escada, e dali ouço o ronco do velho automóvel dos meus pais. Ouço também o tilintar das chaves, ao abrir a porta, e meus velhos me cumprimentarem e dizerem, ao entrar, e me ver no vão da escada, quase que em uníssono: “Te amo! Feliz Páscoa!”

Nesse momento minha visão clareia, e posso agora ver com perfeição todas aquelas memórias que me rodeiam.

E, mais do que nunca, tenho certeza que minha busca chegou ao fim.

 Ouvindo Primeiro Andar, dos Los Hermanos.

  Los Hermanos - Primeiro Andar

segunda-feira, 6 de abril de 2009

Faroeste urbano…

clint eastwood em

Per un Pugno de cioccolato

Estávamos todos numa sala de um agradável apartamento no bairro carioca do Flamengo – belo nome, diga-se de passagem –, silenciosamente dispostos ao redor daqueles objetos. Objetos estes dos mais diversos invólucros, cores e tamanhos, alvos da cobiça de todos os presentes. Todos se entreolhavam, tal qual um daqueles spaghetti westerns, clássicos protagonizados principalmente por Clint Eastwood, entre outros. A essa altura já se podia ouvir com perfeição aquela trilha sonora clássica de Enio Morricone, que se sobrepunha à MPB FM sintonizada no rádio, ainda que apenas em nossas cabeças. Na parede, apenas um quadro, que reproduzia o pôster de “Cinema Paradiso” – sei que não tem nada a ver, mas tinha que comentar, porque acho esse filme sensacional.

Enquanto a tensão se elevava no ambiente, todos esperavam pela sua vez: frágeis papeis picados indicavam os nomes que aleatoriamente decidiriam a sorte daqueles objetos. O primeiro, ou melhor, a primeira deles se levanta e escolhe um dos objetos, retira-lhe a embalagem e revela a todos o seu conteúdo: um toblerone, um alpino, duas caixas de bis, um kinder ovo, e alguma outra coisa que não me recordo agora.

- Impossível! Isso daí com certeza custou mais de quinze reais! – era o pensamento corrente naquela sala nesse momento. E por ter a certeza disso, todos o desejavam.

Explico: tratava-se pois, de um amigo oculto. Mas não um amigo oculto qualquer, mas de chocolate. Vou além: não apenas um amigo oculto de chocolate, mas daqueles de roubar. Nessas ocasiões tudo torna-se pessoal; discussões são iniciadas, amizades são rompidas, tudo em nome da ganância provocada pelo chocolate.

Assim correu a noite, entre risos e abraços que não eram ainda assim capazes de diminuir a tensão provocada pela vontade de buscar o melhor presente. E, alheia a tudo isso havia lá uma caixa de sapato: simples, sem graça, e ainda por cima envolta com um papel prateado, que insistia em descolar conforme as horas passavam. E o pior, fora trazida por alguém muito suspeito em se tratando de esolher presentes em amigo oculto – pra se ter uma ideia, houve uma vez em que o mesmo indivíduo trouxera, para o Natal, um “resta 1” de plástico. Quase voltou com o presente.

Acontece que, entre uns nomes e outros, entre o fim de uma amizade e outra, acabei perdendo claríssimas chances de levar pra casa excelentes presentes, que me foram roubados no último minuto. E lá estava a caixa, que ninguém queria sequer saber do que se tratava, até que por conta do destino, e dos roubos, veio parar no meu colo. E qual não foi a surpresa de todos ao saber que a caixa, antes desprezada, continha inúmeros bombons, em quantidade em muito superior a qualquer outro presente daquele amigo oculto!

Admito que roubei também, mas apenas porque já tinha sido roubado diversas vezes, e não queria sair no prejuízo. No fim das contas, eu, que havia sido o mais roubado da noite até então, acabei levando pra casa o patinho feio, que minutos antes tinha se revelado o mais belo cisne de páscoa da noite.

Quanto às amizades, não obstante o chocolate desperte os mais primitivos desejos – como bem disse Roberto Jeferson, alguém ainda lembra dele? – no coração de uma pessoa, no fim da noite não havia mais mágoa alguma, e todos – ou quase – voltaram para suas casas devidamente satisfeitos.

terça-feira, 31 de março de 2009

Quando um vendedor me abordou na rua

 

vendedor

Um certo dia, ao ser indagado por um vendedor, Sócrates disse: “Estou apenas observando quanta coisa existe de que não preciso para ser feliz”. O mestre da retórica nos apresenta uma grande reflexão – que se torna bastante atual – sobre uma cultura do consumo onde somos levados por questões diversas, como estética, impulso, futilidades, entre outras coisas, esquecendo a parte funcional e principal que deveria justificar a existência daqueles bens que são oferecidos nas lojas. Mas prefiro me ater a outra face deste fato vivido pelo filósofo grego: no tempo de Sócrates já havia vendedor chato.

Vendedor, um dos grandes males da humanidade capitalista. Aquele ser que provavelmente ganha menos do que eu, estudou menos do que eu, trabalha que nem um condenando (muitos para enriquecer seus patrões) e tem a grande função de ludibriar-nos com suas técnicas obscuras. O comentário possui uma certa irritação nas críticas, pois diferentemente de Sócrates, às vezes não sei argumentar com um vendedor e me pego comprando inutilidades ou coisas que eu não queria no momento. Hoje foi mais um dia desses.

Já estive do outro lado e vi que realmente não poderia ser do ramo. Como vendedor de consultorias de cheque, gastei muita sola de sapato, ganhei vários “nãos” irritados e cheguei a correr de um dono de estabelecimento portando uma peixeira. Tudo isso porque não sabia muito bem sobre esta tal arte da persuasão, do convencimento. Mas o vendedor que me abordou hoje na rua sabia. E como sempre, fui mais um contabilizado no caderninho dos idiotas que caem nas historinhas melodramáticas.

O vendedor me aborda:

- Você gostaria de ganhar uma revista de graça?

- Pode ser -, respondo sem muita convicção.

- Então, esta é uma promoção da editora Globo que quer incentivar a leitura. Ela e os cartões de crédito estão oferecendo de graça assinaturas de algumas revistas (Observação: como eu poderia cair nessa história de Editora Globo e Cartões de Crédito dando algo de graça?)

- Que legal! – acompanhado de um sorriso “chocho”.

- Pois é. E se eu conseguir 100 assinaturas, eles ainda pagam uma mensalidade da minha faculdade (É, ele pegou pesado. Agora eu, nestes poucos minutos, deveria me preocupar com o futuro acadêmico do vendedor também)

- Pô, que legal!

- Você só terá que pagar a entrega, pois os Correios não estão fazendo parte da promoção (Ou seja, aquele de graça que o cara mandou no início da conversa foi pro beleléu).

E assim a situação foi continuando. No final, saí com uma dívida de 280 reais para pagar no meu cartão (Visa, obrigado pelo incentivo à leitura) e vou receber as edições de Marie Claire em casa, como eu sempre sonhei (tentei ser irônico agora, mas a irritação é tanta que caso alguém me imagine chorando de raiva por ser mais um idiota, fiquem a vontade).

Obs.: Parafraseando um episódio do inigualável programa de humor infantil Chaves do oito: “15 pessoas enganadas! 15 pessoas enganadas!”

quinta-feira, 12 de março de 2009

Eles se amaram e mais nada


Foi assim que tudo começou. O amor entre os dois não era previsto. De um lado, a família dos Silva, conhecida principalmente pela grande fazenda de cacau no sul da Bahia. Do outro, a família dos Correia, humilde, simples, porém de grandes trabalhadores.


A sorte é que a família dos Correia não precisava se preocupar com o dote. Dar a única alegria feminina para uma noite de amor com um dos Silva trazia certos pensamentos de tristeza e desolação; apesar da falta de dinheiro, ela sempre foi cuidada com amor e respeito. A família dos Correia sempre prezou pela honra, pelo orgulho. Até na vizinhança as pessoas criticavam a maneira como tratavam sua pequena, uma vez que o restante da família passava por problemas financeiros. Mas sempre que alguém colocava a opinião abertamente, Dona Chica não pestanejava: além de ela ser nossa única alegria, é um investimento que fazemos.


Já os Silva sempre foram abastados, nunca se preocuparam com falta de dinheiro. O macho da história era tratado como um lorde. Não lhe faltava nada. Na fazenda, onde a família passava a maior parte da semana, os empregados eram pagos para dar o melhor serviço que ele merecia.


Num final de semana, a empregada mais nova ficou encarregada de cuidar do varão. Toda a família teria viajado para Recife, numa visita rápida aos parentes distantes. Em uma rápida ligação, a empregada e Dona Chica trataram do encontro entre os dois.


Naquela noite, Lorde e Princesa se conheceram e se amaram. Nada regado a contos de fadas - eles se amaram e mais nada.


Sete meses depois, o resultado da cria revelava o número que traria a guerra entre as famílias. De um lado os Montéquios e do outro os Capuletos. Madame Cláudia, a matriarca Silva, ficara sabendo dois meses depois do acontecido e queria a sua parte na história. A empregada, que organizou o encontro como uma espécie de procuradora, já tinha o seu valor acordado. Dona Chica, mulher trabalhadora e de honra, queria o que lhe era merecido. E Princesa deu a luz a sete lindos pastores de Shetland.

Sete é um número interessante: sete dias da criação do Mundo, sete arcanjos do trono de Deus, sete cores do arco-íris, sete notas musicais, os sete pecados capitais... Mas naquele momento, o sete trazia a desgraça. Um cachorro ficaria com a empregada, e os demais seriam divididos igualmente. Igualmente? - ponderou Dona Chica, que não gostou da decisão. Sua princesa era quem mais sofrera com a gravidez e com o parto. Foram os Correia que gastaram a maior parte, pagando alimentação e moradia para a cadela. E por que ficaria com o mesmo número dos Silva?


- Eu sou a única das redondezas que tenho um Pastor de Shetland, assim como você. Se não fosse meu macho, você não teria esses filhotes. E eu não quero vender. Você não teria pena desses cachorrinhos? -, disse Madame Cláudia.


- Isso não te interessa! Quero ficar com a maior parte, pois preciso do dinheiro. Consigo vendê-los pelo melhor preço do mercado e você não vai tirar isso de mim.


E assim a discussão entre as duas famílias durou quase uma eternidade. Para Lorde e Princesa, nada interessava, pois eles se amaram naquele final de semana e mais nada.

sexta-feira, 6 de março de 2009

O homem que tinha dois corações

dois corações

Não se sabe por que razão exatamente. Mas a verdade é que, ao contrário deste que se pode ver nos jornais essa semana, este a que me refiro já nasceu assim. A mãe lembra ainda da primeira ultrassonografia, na qual todos pensavam tratar-se de gêmeos. Os pais fitavam o monitor na esperança de encontrar ali naquela massa cinza que a tela indicava qualquer sinal das duas crianças, mas só encontravam uma. Diziam que se tratava da má qualidade do equipamento – afinal, não dispunham de muitas posses, e mesmo assim, àquela época, os equipamentos não eram tão desenvolvidos quanto os de hoje em dia. Mas poucos meses depois os médicos não viam qualquer desenvolvimento de outra criança além dele; e o seu nascimento então desfez qualquer dúvida quanto a outro bebê ou não. Era apenas um, mas com dois corações.

De fato, por alguma anomalia sem explicação aparente – daquelas que só se vê na TV, em House –, ele nasceu com dois corações. Ainda criança, os médicos diziam que talvez não vivesse muito. Afinal, por algum motivo que não sei explicar direito, ter dois corações não é exatamente algo normal, fisiologicamente falando. Mas, contrariando o que apontavam todas as previsões médicas, ele viveu, e muito. Acho até que esses dois corações deram um certo impulso, rejuvenescendo-o ao longo dos anos – não, ele não é o Benjamin Button, mas é como se os corações se revezassem ao longo do tempo nessa função de bombear sangue, de modo que nunca se cansavam completamente.

Deste modo, ele sempre estava bem disposto; foi sempre uma criança saudável, e se desenvolveu sem problemas. Em sua vida adulta, não era exatamente um atleta, mas não se privava de umas corridas no calçadão às vezes, ou um futebol com os amigos no fim de semana.

E assim seguia a vida, batendo de frente com todos os prognósticos que lhe diziam que não vingaria. Nunca se viu coração que fosse tão saudável quanto os seus, e ele jamais se privou de atividade alguma em nome da suposta doença. Pelo contrário, fez tudo o que pode: enquanto criança, estava sempre de castigo, seja em casa, seja no colégio, por conta do que aprontava; quando adolescente, brigou com os pais, saiu de casa, teve várias namoradas etc etc; já adulto, passou a fazer da bebida e cigarros um hábito – como tinha dois corações, pensava, deve ter maior resistência a esses males –, além de relacionamentos fugazes com mulheres que não fazia questão alguma de conhecer melhor.

Sempre se gabava de seus dois corações – diziam que o tornavam uma pessoa melhor –, como se isso o tornasse superior às demais pessoas. E com isso passou uma vida inteira alheio a elas, sem se envolver demais com ninguém: amigos, namoradas, família – como se ele se bastasse.

- Ele deve achar que tem o rei na barriga! – pensavam muitas de suas “ex” ao serem dispensadas, ou seus poucos amigos, ao serem desprezados, ou ainda, seus poucos familiares que mantinham contato, entre outros; era, de certo modo, pensamento corrente de quem se envolvia com ele.

Consultando o dicionário, vê-se que a definição de “coração”, além de órgão responsável pela circulação do sangue, é também sede da sensibilidade moral, das paixões e sentimentos, o conjunto das faculdades afetivas. Nesse quesito, porém, nosso amigo deixava a desejar. Já no fim da vida, ao olhar pra trás e observar o que fora feito até então, o que ganhou e o que perdeu, ele percebeu que ter dois corações nunca foi uma virtude, pois que nesse sentido ele era exatamente o revés do que coração pode significar. Ao fim de sua vida descobriu, portanto, que apesar de sempre ter tido dois corações, nunca soubera como usá-los.

terça-feira, 3 de março de 2009

Papai tirou Marcelinho Carioca do Flamengo



Naquela tarde de 13 de julho de 93, havia um céu ensolarado digno de verão. Eu cursava a primeira série, logo, não me recordo a circunstância que levou o Fla-Flu do Torneio Rio-São Paulo daquele ano para o estádio Caio Martins, em Niterói. Saí da escola no meio do recreio e fui rapidamente para casa e lá encontrei meu pai. Vesti minha blusa do Mengão e rumamos ao Caio Martins lotado.

O tumulto era grande, comprar ingresso era inviável. Assim sendo, meu pai se juntou à massa rubro-negra que estava a socar um dos portões restritos à imprensa e, de forma milagrosa, um policial o avistou e abriu uma fresta do portão. Era impossível não notar sua presença no meio de tantos torcedores com vestimentas propícias a uma partida de futebol, logo, o policial abriu uma parte do portão, permitindo somente a minha entrada juntamente com meu pai.

Não demorou muito para meu progenitor desenvolver uma de suas falácias:

- Sou da Rede Bandeirantes. – disse ele.
- Posso ver suas credenciais, senhor? – indagou o PM.

Ao ver a possibilidade de não assistir o jogo crescer após a pergunta, papai nem pensou duas vezes ao responder: “Ah, estou atrasado, oras!”.

E assim prosseguimos em direção ao acesso da tribuna de honra do estádio, já que meu pai trabalhava, supostamente, numa emissora de tevê. Não lembro o motivo que nos fazia sempre a assistir os jogos de dentro da tribuna de honra sem pagar nada a mais por isso.

Estádio lotado, o jogo começa, Flamengo parte pra cima. Não demorou muito para, ainda no primeiro tempo, Renato Gaúcho – ainda ídolo do Fla – abrir 2 a 0 para os flamenguistas. O tricolor carioca parecia desnorteado com a superioridade rival. Lembro-me de um atleta do Flu meter a mão na bola de maneira incompreensível e levar cartão amarelo.

O Fluminense regressa para a segunda etapa com gana completamente diferente do tempo anterior, conseguindo diminuir, empatar e, aos 42 minutos do segundo tempo, virar a partida com um chute fortíssimo de Julio César, que bateu no travessão antes de entrar. Pane vermelha e preta: Djalminha e Renato Gaúcho – esperanças de gols do Fla – promovem uma briga dentro de campo que culminou no desligamento do filho de Djalma Santos junto ao Flamengo. Outro jovem e bom jogador que estava aquém do que se espera dele na partida era Marcelinho.

Marcelinho tinha 22 anos e já era um craque, cobrava falta com rara perfeição. Contudo, naquela tarde niteroiense, rendeu pouco, acarretando a indignação de meu pai que começou a xingá-lo incessantemente, solicitando sua substituição. Um cidadão de idade considerada começou a defender a permanência do atleta em campo, iniciando um prolongado bate-boca ríspido com meu pai que duraria até o final do jogo.

Jogo encerrado, meu pai se despede do seu desafeto momentâneo e é perdoado pelas ofensas proferidas. O Flamengo regressaria a Niterói em setembro do mesmo ano, após uma excursão pela Europa, para duelar com o Bragantino. Na tribuna, lá estavam, novamente, eu, Rui e o indivíduo que discutiu com meu pai no mencionado Fla-Flu. Como as pazes já haviam sido seladas, sentaram-se próximos um ao outro e bateram papo durante a partida inteira. E, em uma das minhas espiadas no bate-papo, meu pai me apresentou ao pai do Marcelinho. E assim percebi que, naquele dia, ele estava apenas protegendo seu guri.

Voltei a prestar atenção na partida que terminou em 1 a 1. Dessa vez, as vaias para o Marcelinho ganhariam mais adeptos além de meu pai que, por sua vez, vaiou contidamente, em respeito ao seu novo amigo. Esta seria a última vez que o atleta disputaria uma partida em Niterói vestindo a camisa do Flamengo. Já que, no final de 93, as vaias - originadas por meu pai - estavam tão notórias que foram temas de mesas redondas em programas de TV da época e, conseqüentemente, afetou a direção do clube que, por sua vez, vendeu o atleta para o Corinthians.Marcelinho chegou a São Paulo, ganhou status de ídolo dos corinthianos. Tudo por culpa do meu pai.
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Mais uma contribuição de um dos amigos do Ponto e Vírgula. Diogo Pretto, louro e de olhos azuis, flamenguista e fanfamídia.

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009


Papo de Pai e Filha

Estávamos eu e o dono da casa, sentados no lado de fora, conversando sobre as mudanças da sociedade, sobre o caos que era a instituição familiar e sobre o futuro que é reservado aos nossos filhos. Bem, por enquanto é apenas ele o maior preocupado, pois ainda não sou pai.
Sabe aquelas conversas que surgem de uma análise despretensiosa, sem nenhuma base formal ou oficial, apenas sobre um olhar de quem está inserido no mundo e cria suas opiniões na base da vivência? Pois então, após começarmos a divagar sobre o céu, o futuro dos nossos filhos foi o assunto da pauta, até que aparece Júlia, com seus quase quatro anos de idade. Ela procura seu pai com os braços estendidos, um pouco sonolenta. O dono da casa a abraça, puxa para seu colo e dá aquele sorriso de pai.

Ao olhar aquela cena, penso em como será com meu filho(a). No meio de uma conversa desanimadora com posicionamentos sobre uma espécie de negativismo quanto ao futuro, ainda é possível pensar em felicidade com filhos e família. Aquele sorriso prova que nada está perdido, de que a sociedade não conseguirá mudar princípios básicos como o amor, o orgulho, o sorriso.

- Pai, conta a história da Estrela Dalva? -, pede, acanhada, Júlia.

- Claro, minha filha -, responde o dono da casa, seguido de um beijo na bochecha de sua cria.

“Há quase 100 anos, no mês de junho, surgiu no céu a estrela mais linda. Era a Estrela Dalva. Seu brilho anunciava a alegria e o amor. As outras estrelas se envergonhavam com a presença da Estrela Dalva. Até que no mesmo mês a estrela mais linda do céu veio para o Planeta Terra e pousou, magicamente, no peito da camisa do Botafogo”

Foi isso mesmo que eu ouvi? Estrela Dalva? Botafogo? Realmente me espantei, e, ao ouvir os risos da pequena Júlia, tive que engolir qualquer comentário que em uma roda de bar sairia como um vento, sem me preocupar com o que os outros iriam dizer.

- Pai, agora conta a história do Garrincha?

Como assim, a história do Garrincha? Não me lembro de como era a minha vida aos três anos de idade, mas com certeza eu não tinha a menor ideia do que era meu time de futebol e muito menos de ídolos e jogadores.

“Era uma vez o anjo das pernas tortas. Seu nome era Garrincha. Apesar da sua deficiência, ele era tido como um grande herói, pois não só vestia o manto alvinegro do melhor time do mundo – o Botafogo – mas não tomava conhecimento da equipe malvada do Flamengo, o time da bruxa e do bicho-papão. Garrincha era a alegria do povo, e todas as crianças brincavam felizes, pois o anjo das pernas tortas sempre salvava o dia.”

Saindo de fininho, para não atrapalhar aquele momento família, pude perceber uma coisa. Não é nada ligado aos carinhos de pai e filha, aos ensinamentos e a construção de um caráter frente à desordem social que nós construímos. A verdade é que aquele homem, o dono da casa, criou um grande filão de livros infantis que faria qualquer dono de editora brilhar os olhos como a Estrela Dalva. È, meu amigo dono da casa... você não sabe o quanto está perdendo.



OBS.: Para qualquer torcedor de futebol fanático, este é um simples ensinamento de como doutrinar seu filho contra as influências de amiguinhos, tios, vizinhos e mídia; na base do amor e do carinho, aquele pai pode ter a certeza que nem um namorado sacana, num futuro ainda distante, mudará a sua escolha. Bem, o nome da criança é fictício, a história não.




quarta-feira, 28 de janeiro de 2009

Como conheci o Mumu da Mangueira...

Mumu da mangueira em seus áureos tempos televisivos

Tinha por volta de oito anos, não muito mais que isso. Até porque, não lembro exatamente o ano, mas tenho quase certeza que se deu por volta de 1993. O avião era da finada VASP, com certeza, como se vê do cartão lá embaixo – ou seja, tem tempo que isso se deu. A revista de bordo do avião trazia uma matéria sobre o Tipo, aquele automóvel da Fiat, que era o lançamento do ano; entre as comidas servidas durante o voo – que naquele tempo era uma fartura –, lembro-me que havia um chocolatinho de menta, no formato de uma hóstia, que era uma delícia, ao menos para meu pueril paladar. De fato, guardo com clareza de detalhes na minha memória tudo que ocorreu dentro daquele avião, disso estou seguro. Ou não...


Isso porque, naquela época, eu parava o que fosse que estivesse fazendo pra ver “Os Trapalhões”. Lembro que passava aos domingos, por volta de sete ou oito horas da noite, que vinha a ser justamente o horário da missa que meus pais de vez em quando costumavam frequentar. Pra mim isso era um verdadeiro martírio; que Deus me perdoe, hehehe, mas abdicar de Didi, Dedé, Mussum e Zacarias para participar, por uma hora – exatamente a hora do programa – da missa não era pra mim. Enquanto eu dormia no banco da igreja – convenhamos, criança alguma entende uma missa –, sonhava com o que se podia estar passando no episódio do “Trapa Hotel” daquele domingo, ou qual a história do “cafundó do brejo” que o Didi contaria dessa vez.


Então, pra alguém que gostava tanto assim dos Trapalhões, a situação pela qual eu passava era extremamente extasiante. Não entendi direito no começo o motivo da agitação das demais crianças que estavam no avião. Era um tal de olhar pra trás e cochichar, falar com os pais, apontar, mas ninguém ousava se mexer na poltrona.


Daí decidi olhar pra trás para ver do que se tratava, qual o motivo de tanta aflição naquele avião. Quando olho para trás, admito que a princípio não o reconheci: estava sentado na última poltrona do avião, com um semblante sério, uma roupa igualmente séria, que em nada lembrava suas vestes mais habituais, óculos de grau, e um livro, que não faço idéia de qual fosse, e nem me importava saber. Mas o que sei é que aquela visão em nada me lembrava aquele que pra mim era o melhor dos quatro trapalhões (espero que meu amigo Praião não leia esse post): Mussum.


Tá bom, tá bom. Admito que uma declaração como essa possa talvez chocar muita gente, e pra falar a verdade, nem sei ao certo afirmar entre os quatro quem realmente era o melhor; era um grupo que se completava. Mas não se pode negar: Mussum era ao menos o mais subversivo do grupo. Imagine um programa voltado para a família, com claro apelo junto ao público infantil, ter como um dos principais personagens um cara que era o típico estereótipo do malandro carioca, sambista, que vivia no bar, ou com uma garrafa de “mé” debaixo do braço. De fato, algo impensável nestes tempos em que impera a classificação indicativa na nossa televisão. Nos dias atuais, Os trapalhões seriam reclassificados, e só poderiam ser exibidos no horário do BBB, sei lá.


Mas voltando ao avião: lá estava ele, no fim do avião, já perto daqueles claustrofóbicos banheiros – quando eu era criança, tinha medo de fechar a porta e ficar preso lá dentro, mas ao mesmo tempo, tinha medo do escuro do banheiro, já que a luz só acendia com a porta fechada – de alguma forma entretido no livro que tinha em mãos. Ninguém no avião ousava interpelá-lo e, assim incomodar a sua leitura, por mais agitadas que as crianças do avião inteiro se mostrassem.


Foi então que, num momento de bravura único para a média daquele avião – e instigado por meus pais também, admito –, peguei um cartão postal que havia na poltrona onde estava, levantei-me e dirigi-me até o fim do avião, e não, não fui para o banheiro, mas, na verdade, ousei interromper a leitura que tanto o entretia, a fim de obter um autógrafo. Para meu espanto, apesar de extremamente solícito e educado para comigo, não houve nenhuma piada, comentário engraçadinho acerca daquele cara esquisito que estava duas poltronas à frente ou coisa parecida; limitou-se à educadamente me cumprimentar – algo do tipo “sai fora garoto, que eu tô lendo”, mas, como disse, bem educado – e assinar no verso do cartão.


Foi aí que eu me toquei, do alto dos meus oito anos de idade, que a vida é uma grande representação – talvez não tenha sido algo tão profundo assim; tá mais pra profundo tal qual um pires – e que as pessoas não são sempre as mesmas, ou, pelo menos, as mesmas a que nos acostumamos a ver na televisão. Mas isso não diminuiu minha admiração pelo artista que ele era, pelo contrário. Vi ali que o Mussum nada mais era do que um personagem; o bêbado, o sambista, o humorista, o cantor etc. Todos eram facetas de uma pessoa só, que era tudo e ao mesmo tempo nada daquilo.


Mas esse meu ímpeto em busca do autógrafo foi o que as demais crianças do avião precisavam para ir lá falar com ele, e acabar de vez com seu sossego. Mas até aquela noite – já mencionei que estava de noite? –, devo admitir que nunca tinha me sentido tão corajoso em toda a minha vida: sem hesitar, deixei o conforto da minha poltrona e a companhia protetora dos meus pais e irrompi o corredor do avião, falei com ele e pronto; fui devidamente recompensado, com um autógrafo que, em tempos de câmeras digitais e artistas efêmeros, pode não querer dizer muita coisa pra maioria das pessoas. Mas pra mim, foi muito mais que uma simples assinatura.



Aqui está o autógrafo, acompanhado do meu “autógrafo” do lado da data…

Sei que essa música, tirando seu intérprete, não tem nada a ver com o texto, mas é que é muito boa. Ouvindo Bacubufo no Caterefofo, dos Originais do Samba.