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quarta-feira, 19 de agosto de 2009

Triste dia

Debruçado sobre livros, códigos e cadernos abertos na mesa, a respeito de um caso no qual pretendo me dedicar nos próximos dias, em um instante de distração vejo que na TV transmitem ao vivo a sessão do Conselho de Ética em que discutem acerca das denúncias que recaem sobre o senador José Sarney.

São vários senadores que, de forma meio desordenada, se revezam na defesa de um ou outro ponto de vista, enquanto o presidente do Conselho de Ética, senador Paulo Duque, tenta colocar alguma ordem, de modo que os senadores se concentrem apenas em votar. Creio que isso em si já configuraria um absurdo, tendo em vista que aos senadores que pedem a palavra, o presidente do Conselho diz que será oferecida após a votação, no que Inês já será morta. de que adiantaria discutir algo que já fora irreversivelmente decidido?

De qualquer forma, vê-se que disto aí não poderá sair grandes coisas, uma vez que , juntamente com a votação acerca do Sarney, também farão votação sobre denúncias acerca do senador Arthur Virgílio, justamente da oposição, de onde conclui-se que daí só poderá resultar mesmo é um belo “acordão”, pra safar ambos os lados.

Mas em meio a tudo isso, vejo o depoimento do senador Pedro Simon, do PMDB e um dos mais antigos parlamentares em atividade naquela casa. Ele aponta o dia de hoje como um dia triste na história política brasileira. Infelizmente o que para ele é um dia triste está se tornando recorrente na política brasileira. Mas, independente de minhas posições acerca do PMDB (vide aqui texto já publicado neste blog a esse respeito), e do que ele representa no atual cenário político brasileiro, sou obrigado a concordar com o senador.

Abro o jornal hoje e vejo a infeliz declaração proferida pelo presidente Lula – mais uma dentre tantas outras, a que ele se acostumou a fazer – em que ele compara a “perseguição” sofrida pelo Sarney à perseguição que outros presidentes teriam sofrido no poder, vítimas do “oba-oba do denuncismo”, dentre os quais Getúlio Vargas, JK, Jânio Quadros, João Goulart e Fernando Collor (!?!).

dia triste Tá aí na primeira página do Globo, onde também se vê a pizza com cara de Sarney – muito boa essa…

De fato, o presidente Lula precisa de umas aulas de história. E precisa ainda entender que o Executivo, do qual faz parte, o Legislativo e o Judiciário são, nos termos da própria Constituição que rege esse país, “independentes e harmônicos entre si”, o que quer dizer que ele não pode se imiscuir nos assuntos do Legislativo, a respeito de quem este deve investigar ou não. Os senadores, ainda que membros do PT, são membros de um Poder que não está subordinado às determinações do presidente da República. É muito triste ver que, ainda que por debaixo dos panos, o Lula ache que pode decidir o que o Legislativo faz ou deixa de fazer.

Mas hoje ainda é um triste dia na política nacional porque, ao mesmo tempo em que Lula e o PT – outrora panteão da moralidade política neste país – abraçam Sarney e Collor, numa cruzada política contra a decência em nome do poder, pura e simplesmente, vemos que a senadora Marina Silva – esta sim talvez o último panteão de moralidade na política brasileira – anunciou oficialmente sua saída do partido que ajudou a fundar.

Com isso, além de diversos outros fatos, outras denúncias que foram deixadas pra escanteio e tal, o PT cai cada vez mais em descrédito.

Agora ao fim do texto vejo que o acordão foi enfim selado. Arquivam-se as denúncias contra o Sarney, e fica o dito pelo não-dito, em nome do bem maior, que deve ser a candidatura da Dilma, sei lá.

quarta-feira, 8 de julho de 2009

Show, funeral ou complô?

O funeral, show ou seja lá o que tenha sido aquilo que todas as TV’s do mundo pararam ontem para transmitir – quer dizer, quase todas, pois a CNT tava mostrando propaganda – foi realmente deveras emocionante e tal, tendo como ponto alto o fato de que os filhos de MJ não apenas estavam sem máscaras, como a filha inclusive se atreveu a falar – confesso que nessa hora fiquei com um nó na garganta.

E, de fato, foi tudo feito com uma qualidade impressionante; parecia até entrega de prêmios. Via a hora que alguém ia subir no palco e dizer: “And the Michael Jackson Awards go to…”. Realmente impressionava o modo como tudo fora feito, impecável mesmo. E também foi o primeiro funeral a ser transmitido ao vivo por tantas emissoras ao redor do mundo e reunir também tantas mídias. Foi, com certeza, um funeral mediático, como nunca se viu, sob os auspícios da família Jackson.

Mas o que não se vê comentando por aí é que era um funeral!!! Um funeral, com corpo presente e tudo, não apenas um show em homenagem ao artista. Havia um defunto ali!

E você via os depoimentos das pessoas, felizes, sorrindo de orelha a orelha porque conseguiram ser sorteadas (?!?) para um funeral (?!?!?). Será que eu fui o único que fiquei estarrecido com o fato de haver um corpo ali, morto há onze dias? Talvez seja por isso que ele não tenha sido enterrado antes, eis que preparar um evento dessa magnitude pode levar um pouco mais que dois dias.

Isso na verdade é sintomático da sociedade estadunidense, que sempre encontra uma forma de transformar o que quer que seja em lucro, mesmo na dor. É sintomático do que o próprio MJ representava e talvez por isso não haja ali pecado algum; ele provavelmente queria isso.

***

Tudo muito bom, homenagens mais que justas, mas enquanto todas as televisões do mundo – quase, afinal a RedeTV mostrava o programa da Sônia Abrão – mostravam o mezzo show, mezzo funeral, lá em Brasília acho que nunca na história deste país devem ter sido praticados tantos atos secretos, que, por conta do ineditismo em relação à atenção dispensada ao funeral inclusive pelos canais de noticias, poderiam ser atos escancarados, que ninguém se interessaria.

Aliás, se Sarney, tomado por um súbito sentimento de raiva, pegasse o cortador de pizza com o qual fatiava a iguaria da culinária italiana para partilhar com seus colegas do nosso nobre parlamento e cortasse fora a cabeça do Ahmadinejad, ninguém ficaria sabendo. Depois, querem dizer que não é tudo um complô tramado pelas cabeças de Brasília?

Ouvindo O dia em que a terra parou, do Raul Seixas.

sexta-feira, 26 de junho de 2009

walkin’ on the moon…

Estava atônito. Não havia outra palavra para descrever isso. Era por volta de nove horas da noite, minha aula havia acabado de acabar. Ouço os comentários das pessoas, dizendo que não poderia ser possível isso, no que foram prontamente confirmados pelo rapaz que fica na secretaria do curso:

- É verdade, deu na TV. Foi infarto – ele proferiu tais palavras com uma tranquilidade, de modo que ainda assim recusei-me a acreditar.

Então liguei pra casa, e perguntei à minha imã se era verdade isso que eu tinha acabado de ouvir, e sem nem ao menos dizer do que se tratava ela me disse que sim, que ele havia morrido. O hospital teria demorado a confirmar alguma coisa, mas agora já era certo e definitivo: Michael Jackson morreu.

Nesse momento, esperando o ônibus pra voltar pra casa, passou-me pela cabeça um sentimento, tal qual um déja vù, evocando lembranças da minha infância, e de como me sentira quando soube da morte de pessoas que admirava, como Aírton Senna ou os Mamonas Assassinas. Aquele mesmo sentimento passava agora pela minha cabeça: o sentimento de perda de um ídolo, mas que na verdade, não o perdi agora; já o havia perdido ainda na minha infância.

Michael Jackson foi em seu começo de carreira solo, no começo dos anos 80, um revolucionário na música: suas gravações – com recursos altamente inovadores à época, e que repercutem na música negra de um modo geral até hoje, além do fato de ele próprio compor grande parte de suas músicas –, seu modo tão característico de dançar – talvez fosse sua melhor expressão – e seus videoclipes inovadores – numa época em que poucos artistas ainda se preocupavam com isso, ele já fazia os roteiros e escolhia seus diretores a dedo, dentre os quais até Martin Scorcese – o tornaram um artista completo, a ponto de receber a alcunha de rei do pop pela MTV, título nobre que lhe seguiu até o fim da vida.

A MTV fez e ainda faz muitos artistas, promovendo à categoria de ídolos sujeitos muitas vezes sem talento algum: basta sintonizá-la agora mesmo, que você verá uma série de rappers, emos e Britney Spears, e entenderá. Mas nesse caso fica patente que Michael Jackson foi um artista que fez a MTV, com seus clipes que representavam uma inovação à época – época em que poucos artistas tinham essa sacação do vídeoclipe como instrumento de marketing.

Esse período áureo dos anos 80 estão na minha cabeça como lembranças de algo que na verdade não vivi. Já vagueiam como imagens de um artista que havia entrado para a história da música, incondicionalmente. O Michael Jackson que eu me acostumei a ver era aquele dos anos 90, mais dado a excentricidades e escândalos do que propriamente à música, e que vivia à sombra do artista que fora uma década antes. E foi exatamente aí que não apenas eu, mas todos começamos a perdê-lo.

Mas o que ele fez pela música ficará indelével na história. A verdade é que, cá deste lado do blog, todos achamos Michael Jackson um artista sensacional. Ponto! Quer dizer, ponto e vírgula: até porque a parte dele ser acusado (e inocentado, diga-se de passagem) de abusar de criancinhas não é exatamente algo bom – se bem que uma pessoa negra passar a ser totalmente branca não é também exatamente normal, mas partindo do pressuposto que ele tinha vitiligo e não que isso fosse resultado de seu caráter meio errante, tudo bem.

Pois bem, voltando à linha cronológica de minha história, subo no ônibus e escuto, antes mesmo de dar “boa noite” à trocadora:

- Morreu, morreu, antes tarde do que eu!

Pois é, o problema é que nem foi tão tarde assim…

***

O ponto e vírgula é fã do cara e do que ele fez pela música, como um todo. E, parafraseando uma de suas próprias músicas, don’t (sic) matter if he’s black or white, he’ll always be the king of pop.

Aliás, apesar dessa referência, sinto dizer que não há como escolher apenas uma música dele para ilustrar esse post.

***

Tenho suspeitas de que a morte de Michael Jackson tenha sido um complô armado pelo Sarney e pelo Ahmadinejad, presidente do Irã. Repara só, ninguém mais fala neles. Acho que, pelo menos agora, eles nunca foram tão fãs do rei do pop.