domingo, 31 de janeiro de 2010

Branco e preto, volume dois.

Registros captados via celular de uma ensolarada tarde de domingo no centro do Rio – hoje mesmo, entre uma prova e outra que fiz. O título remete a outro post fotográfico do ponto e vírgula (clique aqui para vê-lo), de 10 de julho de 2009.

Durante o longo intervalo em que não tive nada pra fazer, além de almoçar, é claro, dediquei-me a tirar essas fotos, munido apenas de uma máquina de 3.2 megapixels e um pouco de coragem, afinal é o centro do Rio. Tá aí o resultado:

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E tudo acaba num pequeno bloco família na Praça XV…

sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

A vez do morro

favela escada

Considero extremamente louvável a troca dessa política de confronto que havia sido adotada pelo nosso governador em seus primeiros anos de mandato – o que resultou apenas no aumento dos índices de criminalidade e de mortos em confrontos policiais – por uma presença mais ostensiva da polícia em favelas, diminuindo o poder territorial dos traficantes. Mas admito que o claro comprometimento do governo do estado em pacificar apenas as comunidades da capital me assusta um pouco.

Por fatores diversos, os quais perderíamos horas aqui só para listá-los, Niterói tem sofrido com um acelerado processo de favelização, surgindo novas comunidades a cada dia e tornando completamente inchadas as já existentes. Sem a presença do Estado – frize-se que aqui em Niterói a prefeitura é completamente omissa nessas questões, enquanto o governo do estado só pensa na capital – essas comunidades tornam-se abrigo principalmente para bandidos oriundos de favelas pacificadas no Rio. Não só as comunidades de Niterói, mas também outros lugares que, segundo a lógica do governador, talvez tenham menor importânica ainda, visto que não tem sequer potencial turístico que justifique o investimento, tais como São Gonçalo, Baixada Fluminense etc.

Esse reflexo já é visto nas estatísticas e sentido pelo povo de Niterói. Por serem traficantes de outras áreas, buscam abrigo em favelas controladas pela mesma facção, mas não podem exercer seu antigo ofício, por assim dizer. Daí resulta que eles têm que buscar outros meios de subsistência – ilegais, é claro. Com isso, há um incremento na quantidade de assaltos, sequestros e afins.

A governadoria não pensa em outra coisa senão a Copa e os Jogos Olímpicos – faz bem em priorizá-los, eis que o Rio é a vitrine do Brasil, mas isso não deve se tornar um privilégio, uma exclusividade. E a prefeitura do município só pensa em… sei lá no que ela pensa. Talvez no interminável Caminho Niemeyer, como se a solução para os nossos problemas estivesse em meia dúzia de prédios assinados por Oscar Niemeyer – nada contra, muito pelo contrário, sou fã do cara, mas isso não me impede de ter uma visão clara e objetiva dos fatos.

Deve-se ainda observar que o processo de favelização constante por que passa Niterói tem consequências ainda mais nefastas. Até porque, como visto no Rio, a questão da segurança se resolve simplesmente com policiais na rua, cumprindo seu dever institucional, que é a proteção do cidadão, seja ele quem for, e não invadindo favelas uma vez por mês e atirando a ermo contra bandidos e ferindo a dignidade de quem mora ali e possui trabalho, família etc.

A verdade é que da favelização resulta uma degradação ao ambiente, além de risco à vida – com construções mal-feitas em áreas de riscos – e à saúde das pessoas, já que não há em muitos casos água encanada e esgotamento sanitário, somado ao fato de as casas serem em geral sobrepostas umas às outras, criando ambientes úmidos e insalubres, propícios para determinadas doenças.

Modificar esse panorama é uma questão de se atender ao princípio da dignidade da pessoa humana, princípio motriz de toda a Constituição, para o qual todas as normas devem ser conduzidas. Então não podemos fechar os olhos a essa nova situação pela qual Niterói passa e exigir do poder público, em todas as suas esferas, uma melhor atuação.

Ouvindo O morro não tem vez, de Tom Jobim.

terça-feira, 26 de janeiro de 2010

Carta Póstuma

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No tempo em que escrevo esse texto, calendários já são obsoletos. Há muito a humanidade já não sabe em que ano se está exatamente, desde a primeira vinda de Jesus Cristo, que dividiu a história. Não se faz mais sentido saber. Há poucos resistentes, que afirmam saber ao certo em que ano estamos, mas não são confiáveis, eis que até mesmo os números por eles afirmados são muito díspares entre si. Às vezes a diferença chega a dezenas de anos.

A verdade é que há muito tempo a humanidade se esqueceu de contar os anos. Viu que isso não se fazia mais necessário, ou talvez apenas por preguiça mesmo, já que hoje pouco fazemos; as máquinas fazem por nós. Só esquecemos de criar uma máquina que contasse os anos com eficiência – não fomos capazes de prever que aquele erro do bug do milênio se repetiria alguns séculos depois. Mas já estávamos tão entregues ao labor das máquinas que sequer pudemos antever isso.

Por causa dessa incapacidade de adequação cronológica pela qual a humanidade passa nos dias de hoje, não sei dizer ao certo o momento da história em que isso tudo começou. Sei que já faz alguns séculos – dois talvez – uma vez que eu mesmo, que ainda sou jovem, já estava aqui para poder presenciar tal fato. Mas acho que a origem disso tudo vai ainda mais longe: deve ter sido lá pelo século XX – sim, ainda temos registros históricos desse momento – quando o mundo viu surgir o conceito de Welfare State, o tal do Estado do bem estar social. Surgiram os tais direitos de segunda geração, também chamados prestacionais, ou seja, agora que a humanidade estava toda ferrada, castigada pelas guerras do século XX, o governo deveria fazer por onde e ampará-la. Ia-se pelo ralo aquele conceito do Adam Smith de que a mão invisível do mercado consertaria todas as coisas, e que o Estado jamais deveria intervir. A iniciativa privada dava lugar ao Estado em questões sociais, tais como educação e saúde. Isso somado ao absurdo avanço tecnológico que o mundo testemunhou a partir daquele século, muito mais do que todos os outros séculos somados e elevados ao quadrado, que permitiu que se descobrisse curas pra doenças antes tidas como incuráveis, métodos de rejuvenescimento da pele, e de prolongamento da vida etc.

Mas nós não estávamos satisfeitos: queríamos mais. Viver até os oitenta anos não era mais nada de especial – todos viviam. Vamos até os cem anos. Dos cem, vamos até os cento e dez, e assim por diante. Até um ponto em que se viu que poderíamos prolongar oquanto fosse as nossas vidas, ainda assim estariámos enclausurados em um corpo que não adiantasse o quanto as técnicas de rejuvenescimento permitisse, se tornaria cada vez mais caquético, eis que a natureza, nesse sentido, é uma força incontrolável, impossível de ser detida – talvez apenas retardável, como pudemos perceber nos primeiros anos.

Não bastava mais retardar o envelhecimento natural de nossas células, eis que um dia elas se desgastariam de qualquer jeito. Os átomos que compõem nossas células, que compõem nosso corpo, se cansariam um dia de cumprir sempre aquela mesma função, e partiriam em busca de outros átomos para formar novas moléculas e possivelmente novas células de um novo organismo. Descobriu-se então que a melhor forma de evitar isso tudo seria descobrir uma forma de nos eternizarmos. Foi o que fizemos: criamos corpos sintéticos, que não envelheceriam na mesma proporção que nossos frágeis corpos que Deus nos deu. E ainda assim quando estivessem velhos e frágeis esses corpos, tais como os corpos dos velhos de outrora, descartaríamos, como se descarta a um copo de plástico após saciar-se a sede.

E assim fizemos: transferimos nossos pensamentos, nossas ideias, valores, amores, amizades, e tudo o mais que nos fazia humanos a um corpo frio e sem vida, ao qual trataríamos de avivar e aquecer.

Primeiro a humanidade escolheu quem deveria fazê-lo: houve uma grande seleção, envolvendo as maiores nações do planeta, que indicou seus maiores pensadores, líderes, os mais respeitáveis enfim. Houve entre estes quem se opusesse, mas a grande maioria foi favorável ao projeto. Afinal, a vaidade neste momento falava mais alto do que muitas convicções pessoais e religiosas.

Com o tempo, barateou-se o procedimento, e todo o tipo de pessoa pode fazê-lo, por uma bagatela. Claro que era uma bagatela para os países do norte, eis que para muitos países subdesenvolvidos – mesmo depois de séculos, não conseguiram se livrar de tal alcunha – ainda era uma fortuna. Os resistentes, a quem me referi no começo dessa carta, são em sua maioria oriundos destes países, pois que além da questão financeira envolvendo o procedimento, ainda há o fato de que em sua maioria são países que possuem um apego à religião, a forças místicas que segundo suas crenças dominam o universo. Por isso mesmo entendem ser isso tudo uma afronta aos seus credos.

Àquele tempo eu não cria em Deus algum. Hoje me arrependo disso. Digo isso porque, assim que se foi barateando o custo do procedimento, fui um dos primeiros a buscá-lo. Depois de um tempo, já se via propaganda na TV a respeito, outdoors espalhados pelas principais avenidas das grandes capitais ao redor do mundo; um grande comércio surgiu a partir disso tudo. Grandes empresas farmacêuticas envolvidas, muitos lucros às custas de trabalhadores que sequer tinham condições de realizá-lo em si mesmos.

Fiz o procedimento e hoje, alguns séculos depois – tempo que sequer sei precisar, pois passei muito tempo ocupado em fazer tudo que pudesse fazer, o que meu modo limitado de vida pré-procedimento jamais me permitiria – vejo o vazio que tudo isso representa. Não deixei aqui na terra legado algum; nem quis fazê-lo durante muito tempo, já que imaginava que meu maior legado seria eu mesmo, fisicamente eternizado.

Com isso, não apenas eu, mas todos os que se submeteram ao procedimento passaram a viver uma vida sem propósito, eis que não nos restava mais nada a fazer – até mesmo o nosso trabalho havia sido delegado às máquinas, que o faziam sem se cansar ou reclamar. Há algumas dezenas de anos atrás fui cansando e percebi que não havia mais nada a ser visto, que não havia novidade alguma na terra. Subvertemos a natureza e ela agora nos subverte, ao nos escancarar o fato de que não somos para sempre – ou não devemos sê-lo. Tudo deve estar em constante mutação.

Hoje cansado disso tudo, escrevo essa carta, que na verdade já se afigura póstuma desde a primeira letra, eis que morri há muitos anos atrás; esse que vos escreve é apenas um projeto de humano, há muito largado em um corpo que não é seu. Já troquei de corpo algumas vezes, pois como já disse, assim como nós deveríamos ser, esses corpos não duram pra sempre. Mas desta vez, depois já de muito tempo assim, não pretendo mais trocar. Não há como me desligar, ou morrer, no velho jargão humano pré-procedimento. Por conta disso, só me resta esperar. Espero até que a bateria acabe. As células cerebrais que mantém minha consciência viva não resistirão à falta de energia. Daí não terei mais como ligar-me e assim poderei finalmente descansar em paz.

Minha porção ficção científica, aliada a um estranho surrealismo kafkiano me permitiram escrever esse texto. Tá, não é grande coisa, mas já tá melhor que Guerra Dos Mundos, não?

sexta-feira, 1 de janeiro de 2010

Adeus ano nem tão velho assim…

meias horasMeia-hora hoje é muito pouco… 

Bem, antes de mais nada, feliz ano novo a todos que lerem esse texto. 2010 já está aí, e esse post inaugura o novo ano do blog. Mas não vim aqui escrever a respeito do ano que se inicia, das resoluções de última hora que não serão cumpridas etc.

Vim para falar a respeito do ano que passou. Cada vez mais tenho a sensação de que os anos passam mais rápido: 2009 mais rápido que 2008, este, por sua vez, mais rápido que 2007, e por aí vai. Hoje estamos cá na ressaca do réveillon e amanhã já estaremos na páscoa. Os físicos com certeza encontrariam explicações de fato plausíveis, tais como a expansão do universo, que faz com que átomos e moléculas, para acompanhá-la, vibrem cada vez mais rápido e, por isso mesmo, a noção de tempo se modifica. O tempo está cada vez mais rápido também, no ritmo imposto pelo Big Bang, e consequente expansão do universo – desculpe a minha noção simplista da física, mas é que uma vez um amigo meu, físico, me contou essa história e nunca mais esqueci; acho que faz um certo sentido sim.

Outra explicação logicamente aceitável está no fato de que cada vez mais a vida cotidiana se tornou uma coisa rápida. Hoje não há espera: fazemos tudo e buscamos a resposta pra ontem. As cartas não levam mais dias até chegarem à casa de um amigo ou parente com quem deseja se corresponder, mas o e-mail leva nanossegundos até chegar lá – tudo depende de uma conexão boa. Há orkuts, twitters, facebooks e afins que nos expõem em tempo real ao mundo, e nos dão a pronta resposta ao que queremos. A fila sempre nos incomoda, pois implica sempre em uma grande espera.

É só compararmos a tecnologia que há hoje ao nosso alcance e a que tínhamos há dez anos, e a infinidade de possibilidades que essa mesma tecnologia nos permite nos dias atuais. Hoje, como JK já ansiava nos longínquos anos 50, do século passado, podemos tranquilamente viver cinquenta anos em cinco, pois o tamanho de informação a que temos acesso a um ano equivale a uma boa parcela de vida de nossos avós, por exemplo. Estes sim vivam com mais tranquilidade, pois não havia e-mail, SMS, micro-ondas, celular. Havia tão somente a espera.

Acho que se soma a isso o fato de que cada vez mais um ano representa uma parcela menor de nossas vidas, e portanto, em relação ao tempo vivido, é cada vez mais insignificante. Veja bem: para uma pessoa que acabou de completar um ano, viver mais um ano representa exatamente metade de sua vida. Para quem tem dez, 1/10 de sua vida. Mas para quem tem 50, é apenas mais um a se somar com os outros 49. Imagino que isso deve ter maior contorno exatamente por conta desse momento em que se vive hoje, no qual se espera resposta imediata pra tudo, e na maioria das vezes se obtem mesmo. Salvo algumas exceções, como aquela pessoa de 99 anos, em que mais um ano de vida pode ser considerada um grande feito, acho que para a maioria das pessoas conforme se envelhece, mais o envelhecimento se torna mais um elemento de sua rotina, e o tempo se torna algo cada vez mais cotidiano.

2009 foi pra mim de longe o ano mais rápido de minha vida – graças a Deus, pois não me deixou grandes lembranças. E espero para 2010, não apenas para quem está desse lado, mas para todos os que frequentam este blog, muito sucesso – pessoal e profissional –, saúde, paz e todo aquele etc e tal que costumeiramente se deseja em ocasiões como essa. Mas desejo também, e principalmente, que o tempo não passe assim tão rápido.

Feliz ano novo!

quinta-feira, 24 de dezembro de 2009

Feliz Natal!!!


Feliz Natal!!!, upload feito originalmente por Renan Costa.

Talvez seja como escrever um cartão, destes que compramos na papelaria, não sei ao certo. Mas o que eu sei é que em situações tais costumo nunca saber o que escrever, até o momento em que o escrever se torna inadiável, o que é o caso.

Estou há dias pensando em um post de natal para este blog, e simplesmente não tinha ideia de como fazê-lo, de como ao menos começá-lo, até que há pouco menos de dois minutos veio-me este lampejo. Começo pelo fato de que não sei como começá-lo, e assim, ao menos posso introduzir um pretexto para o texto – mas deixando claro não ser este o tema principal do post, até porque esse é um tema mais do que recorrente nestas páginas. E lá se vão dois parágrafos...

Pois bem, deixando claro que a falta de criatividade deste interlocutor não é o tema sobre o qual se discorrerá no post de hoje, passo à questão de fundo que me pôs diante do teclado em um dia como hoje: nossos (acho que falo por todos que mantem o blog quando escrevo isto) sinceros votos de um feliz natal e um ótimo ano que em breve se iniciará para todos, caros leitores.

Também creio que posso falar por todos aqui que natal é bem mais que troca de presentes e comida que só se vê uma vez por ano – por que não temos rabanada o ano inteiro? –, pelo que realmente nos representa. O símbolo maior do natal não é, nunca foi, nem nunca será o papai noel, os elfos que vivem em regime de semi-escravidão no polo norte fazendo brinquedos ou as filas dos shoppings, que aliás, a cada ano se enfeitam cada vez mais cedo - daqui a pouco o papai noel vai chegar lá junto com o coelho da páscoa pra poder guardar seu lugar.

Aos leitores que não creem, perdoem-me a minha falta de laicidade, mas quem realmente é o rockstar do natal é aquele cara que trinta e três anos depois desta data que comemoramos amanhã morreria na cruz pela humanidade. No mais, é tudo supérfluo, coisa menor.

Até porque "seja rico ou seja pobre, o velhinho sempre vem" talvez seja uma das maiores mentiras da humanidade. Mentira maior que essa só os panetones de Arruda lá em Brasília. Posso afirmar com absoluta certeza: não há democracia no natal. Não neste natal que praticamos hoje, baseado no consumo e em um pragmatismo excessivo, em que cada vez mais valores e crenças - sejam elas quais forem - se perdem. Mas talvez isso seja papo pra outro post.

Pois bem, é isso: tenham todos um feliz natal. E ponto.

Ah, pode ter certeza: não estou ouvindo Simone, a cantora oficial do natal.

sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

Presente de Natal

A fotografia é hoje uma das minhas grandes paixões. Em meio a tantos problemas e estresses, ela me desestressa. Por gratidão ao que ela fez por mim, dou o meu melhor nas fotografias que faço. As que publico aqui no blog são algumas das que foram tiradas recentemente em Natal, cidade que é um presente não apenas aos olhos, mas a todos os sentidos humanos – o que, como se vê, facilitou em muito minha tarefa. Mas aqui apenas a visão irá se satisfazer com os encantos de tal lugar. Ei-las, portanto:

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SDC10303

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surfista no morro do careca

barco

jangada pb

Julia

literatura de cordel

Morro do careca

Natal refletida

ônibus em Natal

pai e filho

pescador pb

ponte newton navarro

por do sol em redinha

Praia do meio 3

praia do meio 4

Redinha com Ponte ao fundo

julia chutando a água

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Janela do avião

Fim.

segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

Quisera eu...



“Corria o ano de 1911. Vejam vocês: — 1911! O bigode do kaiser estava, então, em plena vigência; Mata-Hari, com um seio só, ateava paixões e suicídios; e as mulheres, aqui e alhures, usavam umas ancas imensas e intransportáveis. Aliás, diga-se de passagem: — é impossível não ter uma funda nostalgia dos quadris anteriores à Primeira Grande Guerra. Uma menina de catorze anos para atravessar uma porta tinha que se pôr de perfil. Convenhamos: — grande época! grande época!

Pois bem. Foi em 1911, tempo dos cabelos compridos e dos espartilhos, das valsas em primeira audição e do busto unilateral de Mata-Hari, que nasceu o Flamengo. Em tempo retifico: — nasceu a seção terrestre do Flamengo. De fato, o clube de regatas já existia, já começava a tecer a sua camoniana tradição náutica. Em 1911, aconteceu uma briga no Fluminense. Discute daqui, dali, e é possível que tenha havido tapa, nome feio, o diabo. Conclusão: — cindiu-se o Fluminense e a dissidência, ainda esbravejante, ainda ululante, foi fundar, no Flamengo de regatas, o Flamengo de futebol.

Naquele tempo tudo era diferente. Por exemplo: — a torcida tinha uma ênfase, uma grandiloqüência de ópera. E acontecia esta coisa sublime: — quando havia um gol, as mulheres rolavam em ataques. Eis o que empobrece liricamente o futebol atual: — a inexistência do histerismo feminino. Difícil, muito difícil, achar-se uma torcedora histérica. Por sua vez, os homens torciam como espanhóis de anedota. E os jogadores? Ah, os jogadores! A bola tinha uma importância relativa ou nula. Quantas vezes o craque esquecia a pelota e saía em frente, ceifando, dizimando, assassinando canelas, rins, tórax e baços adversários? Hoje, o homem está muito desvirilizado e já não aceita a ferocidade dos velhos tempos. Mas raciocinemos: — em 1911, ninguém bebia um copo d’água sem paixão.

Passou-se. E o Flamengo joga, hoje, com a mesma alma de 1911. Admite, é claro, as convenções disciplinares que o futebol moderno exige. Mas o comportamento interior, a gana, a garra, o élan são perfeitamente inatuais. Essa fixação no tempo explica a tremenda força rubro-negra. Note-se: — não se trata de um fenômeno apenas do jogador. Mas do torcedor também. Aliás, time e torcida completam-se numa integração definitiva. O adepto de qualquer outro clube recebe um gol, uma derrota, com uma tristeza maior ou menor, que não afeta as raízes do ser. O torcedor rubro-negro, não. Se entra um gol adversário, ele se crispa, ele arqueja, ele vidra os olhos, ele agoniza, ele sangra como um césar apunhalado.

Também é de 1911, da mentalidade anterior à Primeira Grande Guerra, o amor às cores do clube. Para qualquer um, a camisa vale tanto quanto uma gravata. Não para o Flamengo. Para o Flamengo, a camisa é tudo. Já tem acontecido várias vezes o seguinte: — quando o time não dá nada, a camisa é içada, desfraldada, por invisíveis mãos. Adversários, juizes, bandeirinhas tremem então, intimidados, acovardados, batidos. Há de chegar talvez o dia em que o Flamengo não precisará de jogadores, nem de técnicos, nem de nada. Bastará a camisa, aberta no arco. E, diante do furor impotente do adversário, a camisa rubro-negra será uma bastilha inexpugnável.

Nelson Rodrigues

Publicado originalmente na antiga Manchete Esportiva, no dia 26/11/1955.
Quisera eu ter escrito este texto. Mas ele foi escrito por um dos maiores escritores do país, e fluminense roxo. Parabéns ao Flamengo. Ah, e parabéns também ao Vasco, Botafogo e Fluminense, que estarão na primeira divisão do ano que vem, engrandecendo o futebol carioca e brasileiro como um todo.

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

Marco Zero

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25 de março de 2009. Às 14 horas, consultório do Dr. John Cole, no terceiro andar do Hospital Geral do Queens. Com certeza não é o melhor oncologista que há em Nova York, mas provavelmente o melhor que se poderia obter com o plano de saúde oferecido pela prefeitura aos seus policiais.

Jim Anderson, policial, 45 anos de serviço pela cidade de Nova York, sente-se completamente impotente. Sentado diante da TV sintonizada em um canal de notícias, uma edição da New Yorker da semana passada e uma enfermeira que, completamente alheia à sua desesperadora situação, calmamente lixa as unhas em pleno balcão de atendimento, ele pensa que de nada lhe adianta agora todo o seu treinamento levado a cabo por anos na academia policial, sua experiência no trato com criminosos no dia-a-dia das ruas. Pensa dessa forma porque não há o que possa fazer, apenas esperar. Esperar pelo próprio Dr. Cole, que agora adentra a sala, com o resultado do exame que fizera outro dia em mãos. O resultado não foi outro diferente do esperado: Jim Anderson estava com câncer.

A moléstia que agora que lhe afligia era decorrência provável da exposição a elementos tóxicos decorrentes da queima dos mais diversos materiais, tais como ferro, plástico, concreto, entre outros, além de substâncias reconhecidamente nocivas, como o amianto. Essa exposição decorreu do fato heróico que marcara sua vida até então, seu maior motivo de orgulho: o trabalho na busca de sobreviventes no Marco Zero, após a queda do World Trade Center.

Lembra até hoje do fatídico dia em que todo o contingente policial que havia na cidade fora deslocado até o local da tragédia, na esperança de encontrar ali respostas para aquilo do qual, atônitos, foram meros espectadores. Lembra com exatidão do momento em que, cercado de concreto esfacelado e metal retorcido, pouco podia ver à sua frente. Podia apenas ouvir. E das vozes aflitas ressonantes que surgiam por entre os escombros, o policial Anderson tirava suas forças para seguir buscando, escavando, à procura de vidas, como se a sua própria dependesse disso.

Mal sabia ele que o fato que mais marcara sua vida até então lhe deixaria uma última e indelével marca: o câncer fatal, que lhe consumiria em brevíssimo tempo. Restava-lhe muito pouco tempo para aproveitar a vida e fazer tudo aquilo que não fizera até então.

***

27 de julho de 2002. Carlos Hernandez irrompe a sala em direção à cozinha, onde se encontravam seus pais, Pablo e Cristina, e seu irmão mais novo, Juan, para dar-lhes a notícia que acabara de receber. Tinha em mãos uma carta enviada pelo Exército dos Estados Unidos, convocando-o a servir à pátria, na busca pelos terroristas responsáveis pelos atentados de 11/09.

Apesar do que os nomes possam levar a crer, Carlos e Juan são cidadãos norte-americanos, nascidos na cidade de Nova York, onde moram até hoje, no Bronx, ao norte da cidade. Já seus pais, também cidadãos norte-americanos, só que, para os olhos de parte da sociedade, de segunda classe. Eles vieram há alguns anos de Porto Rico, pra tentar sucesso na terra das oportunidades que lhe demonstrava ser a América. Muito jovens e recém-casados quando aportaram na cidade, à sombra da estátua da liberdade, jamais conseguiram a tão almejada ascensão social que esperavam obter.

Pois a notícia trazida por Carlos à sua família causou um certo estarrecimento. Seus pais estavam atônitos ante tal fato: seu filho mais velho, de apenas 19 anos recém completados havia sido convocado para lutar pelos Estados Unidos da América no Afeganistão, em busca dos terroristas responsáveis pelo atentado às Torres Gêmeas e à sede do Pentágono, além daquele avião que caiu sobre a Pensilvânia, pouco mais de um ano antes. Sabe-se lá o que poderia lhe esperar por lá. As histórias que ouviam, ou as matérias que viam passar na TV davam conta de coisas horríveis que poderiam acontecer aos soldados, como atentados com homens-bomba, sequestros etc.

Mas para Juan, do alto de seus catorze anos, nada disso era importante, pois tudo era menor ante a possibilidade de se defender a nação, de se propagar pelo mundo afora o modelo de liberdade norte-americana, com direitos iguais para todos, livre expressão de pensamento, entre outras conquistas do mundo livre ocidental. Levar aos países regidos por regimes despóticos e anti-democráticos o modelo de sociedade justa e igualitária que são, em seu modo de ver as coisas, os Estados Unidos. E justamente o seu irmão, seu melhor amigo, seria para ele o herói responsável por capitanear essa incursão pelo mundo árabe, que tal qual o Capitão América, lavaria com sangue a honra da América.

Enquanto isso, na TV, o presidente George W. Bush discursava à nação, afirmando que tomaria todas as precauções possíveis no iminente ataque ao Iraque, além da busca aos terroristas no Afeganistão, e atuaria com os aliados “lado a lado”, para evitar que nações mal-intencionadas possam causar distúrbio à paz mundial.

***

25 de outubro de 1995. No quarto 507 da maternidade de um luxuoso hospital ao sul de Manhattan nascia Yussef Abdalaziz. Filho de um casal de egípcios, que moravam em Nova York há apenas um ano e meio, por conta da empresa em que o seu pai, Hamzah, trabalhava, uma companhia petrolífera com sede em Londres, mas escritórios em diversas cidades ao redor do mundo.

Para essa família a América de fato se descortinava como uma terra de grandes oportunidades. Há alguns anos o casal já havia deixado o Egito para trabalhar em Londres, onde eles conseguiram obter um padrão de vida muito mais elevado do que jamais tiveram enquanto estavam no Cairo. Mas em nada se compara ao que viviam nos EUA. Havia sido promovido a um cargo de destaque dentro da companhia e mandado simplesmente para um dos maiores escritórios fora da Inglaterra, justamente na 5ª Avenida, no coração de Manhattan, quiçá do mundo.

Imaginavam um mundo de possibilidades para seu filho, que acabara de nascer: estudaria na Columbia University, pelo desejo da mãe, pois assim ficaria mais perto de casa. Por isso mesmo, nem se interessava muito pela carreira que seguiria. Já o pai imaginava o filho cursando direito em Harvard, ou talvez Yale. Seria mais distante, mas isso não é nada quando tudo se resumiria a poucas horas dentro de um carro, ou de um avião, dependendo de onde fosse. O pequeno Yussef sequer poderia imaginar o mundo que lhe esperava fora daquele quarto, mas seus pais já imaginavam, e faziam planos, a respeito da vida próspera que teria.

***

A história que começou logo acima gira em torno de três pessoas que de um modo ou de outro tiveram suas vidas afetadas pelo atentado de 11 de setembro. Porquê o 11 de setembro, algo tão distante das nossas realidades – pelo menos da minha – eu não sei. Mas se Chico Buarque escreveu Budapeste sem nunca ter pisado lá, acho que eu posso tentar também.

Essa é a minha primeira experiência literária verdadeira. Não pretendo escrever um livro ou coisa parecida, mas pela primeira vez neste blog criar uma história que não se resuma, ou se prenda, às poucas páginas de um post, mas se perpetue por vários outros. Por isso conto com a ajuda de vocês, leitores, para dar um rumo a essa história; se está boa, ruim, se acaba no próximo post ou não acaba tão cedo, espero contar com vocês para decidir. Para isso, espero ter a opinião de vocês aqui no blog, ou no orkut e twitter. Abraços.

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

Res Publica

Ontem foi o dia da proclamação da República, feriado que passou despercebido, já que caiu num domingo mesmo. Mas a data é pretexto para o post de hoje. O Brasil vive um momento de grande euforia, no plano nacional e, principalmente, internacional. Ganhamos a sede da copa, das olimpíadas, Lula é o cara pro Obama, viramos cartaz de filme-catástrofe (2012) e aparecemos até no programa da Oprah. E semana passada ainda fomos capa da revista semanal “The Economist”, talvez a mais importante revista em circulação nos dias de hoje – pegou o lugar que até bem pouco tempo era da “Time”.

A matéria em questão, sob o título “O Brasil decola”, exaltava o Brasil como o país do futuro, slogan mais do que conhecido para nós brasileiros. Só que ao contrário das eternas previsões que nunca se concretizam, a revista deu um prazo. O futuro tão almeijado por nós brasileiros chegará em cinco anos, quando o Brasil se tornará uma das cinco maiores economias do mundo. A revista exalta a potencialidade do Brasil, e diz que o único grande empecilho a essa conquista nospróximos cinco anos é o nosso próprio orgulho.

Acho que nesse ponto a publicação se enganou. Digo isso porque, embora realmente sejamos um povo muito orgulhoso de nós mesmos, das belezas naturais de nosso país, da alegria da nossa gente – parece até propaganda do Ministério do Turismo –, a verdade é que o brasileiro é o mais descrente nisso tudo, basicamente por causa dos nossos representantes. Acho que é consenso geral entre a grande maioria dos brasileiros médios de que tudo isso que aparece na revista, pragmaticamente previsto para se realizar daqui a cinco anos, é uma grande utopia, que por conta da falta de confiança que existe hoje nos nossos políticos, e a decorrente crise no sistema de democracia representativa, mais do que isso, torna-se uma distopia – uma deturpação daquilo que é quase inatingível.

Enquanto as forças oligárquicas que dominam a política regional de nosso país andam de mãos dadas com o presidente Lula, num gritante contrassenso, não vejo como isso tudo pode se realizar em tão pouco tempo. É um contrassenso que as pessoas em geral não veem, pois nunca antes na história deste país tivemos um presidente tão popular. Só pra constar: ele é a 33ª pessoa mais poderosa do mundo, à frente inclusive de Nicolas Sarkozy (marido de Carla Bruni e presidente da França) e Osama Bin Laden (?!?). e ainda por cima, em janeiro será lançado um filme sobre a vida do cara, sendo que ele ainda estará no poder – será que tem alguma ponta da Dilma no filme? E olha que já vi um trailer do filme, e parece que será muito bom, pra chorar mesmo.

O grande problema é que esse endeusamento do presidente Lula, que hoje parte até lá de fora, esconde nossa visão pra muita coisa aqui dentro que não está certa.

O que isso tem a ver com a data em questão? A palavra “República” vem do latim, res publica, que quer dizer coisa pública, que é de todos. Nossos representantes estão mesmo cuidando do que é de todos?