domingo, 30 de maio de 2010

Perdido na Selva

lost Esta semana Lost chegou ao fim, aquele que talvez seja o seriado mais comentado de todos os tempos. Durante seis temporadas aficcionou milhões de pessoas ao redor do planeta e colocou discussões antes restritas ao mundo geek, tais como viagem no tempo, tecnologias, ficção científica etc., em qualquer rodinha em mesa de bar. Pessoas fanáticas comentavam os mais recentes acontecimentos da série e levavam aquilo pras suas vidas como se realmente fosse algo de muito importante. E ai de quem ousasse questionar os últimos acontecimentos da série, ou simplesmente dizer que o texto era ruim, mal-feito ou coisa que o valha; este era sumariamente excluído das conversas, tratado como alguém menor. Ou seja, quando o assunto era a série, o sujeito ficava completamente lost – putz, desculpe, mas não resisti.

Admito que ao longo das últimas cinco temporadas de Lost eu me encaixei melhor nesse último grupo aí. Digo isso porque, logo assim que a série estreou, com a premissa fantástica de um avião que caía numa ilha perdida no  meio do Pacífico, e seus inúmeros sobreviventes tendo que lutar para continuar sobrevivendo, pensei que poderia ser um bom programa para se acompanhar na TV por assinatura. Digo isso porque, apesar de a TV paga ser uma alternativa à mesmice que impera na aberta, de um modo geral, hoje vê-se que não é bem assim, com o excesso de reprises, comerciais – comerciais em TV paga, como se fosse TV comum, chega a ser sacanagem – além de inúmeros canais de televendas. A gente acaba penando até mesmo para encontrar uma boa programação nas dezenas de canais que nós pagamos justamente para não termos que nos preocupar com isso.

Mas voltando ao assunto Lost, foi exatamente por isso que decidi acompanhar o desenrolar da série, e o fiz até o final da primeira temporada. Mas conforme o desenrolar da história, só  surgiam perguntas, mas nunca respostas – isso não é uma percepção exclusivamente minha. Aliás, todo mundo que acompanhou a série acha a mesma coisa, ou achou em algum momento. De modo que, assim como a muitas pessoas, isso me desestimulou a continuar acompanhando a história. Somado a isso o fato de que, mesmo quando a série teve início, jamais imaginei que pudesse ser tão longeva, afinal, os caras caíram numa ilha, perdidões. Não tem muito o que se fazer numa situação dessa. Daí pra inventarem uma suposta companhia que levou todos pra lá, dois irmãos com poderes mágicos que competiam pela ilha, números malditos que não significavam porra nenhuma, entre outras coisas surreais trazidas pela série, foi um pulo. Os criadores da série estavam ganhando rios de dinheiro pra escrever uma história sem pé nem cabeça, e que no entanto levava um monte de gente a passar horas discutindo dezenas de teorias conspiratórias para explicar o quebra-cabeças, que no final se revelou sem solução.

Mas a verdade é que, depois de acompanhar apenas a primeira temporada da série e nunca mais sequer dar uma passadinha pelo AXN pra saber como andavam as coisas lá pelo Pacífico, esta semana decidi ver como seria o último episódio. Pra garantir, assisti ao especial que antecedeu o último episódio, que tratou de explicar todos os acontecimentos da série que levaram até aquele ponto, daí que pelo menos pude entender em que ponto estava a história naquele momento. E admito que, apesar de a coisa toda não ter sentido algum, minutos antes do episódio começar já perguntava  a mim mesmo coisas do tipo “será que o Jack consegue matar o Locke?” ou “será que a ilha vai ser destruída?”.  Bem ou mal, é um  texto sem nexo algum, mas que consegue te prender. Tanto que enquanto assistia ao último episódio como se fosse o maior fã da série, sendo que até bem pouco tempo atrás desconhecia a metade dos personagens.

Mas aquela série que tinha todo um apelo sociológico – afinal, tratava-se de pessoas sozinhas numa ilha, tendo que encarar umas às outras e a si próprias – e também tecnológico – tinha viagens no tempo, números misteriosos, Dharma etc. – perdeu para a questão espiritual – a ilha como uma tampa de uma grande caixa de pandora, o irmão bom e o irmão mal, que por algum motivo tinham poderes etc. – e com isso, pude constatar que aquela pedra que o escritor norte-americano Stephen King já tinha cantado ainda na primeira temporada da série e os produtores fizeram questão de rechaçar logo de cara era a mais pura verdade: não tem esse troço de avião caindo em lha perdida no meio do oceano e tal. Na verdade, todos ali estão no purgatório, expiando seus pecados e esperando o momento de entrar no céu.

Isso foi uma das principais teorias levantadas quando a série surgiu, mas a produção da série fez questão de negar, e disse que se tratava de algo muito maior. Acho que na verdade eles não sabiam ainda o que queriam com aquilo, e foram enchendo linguiça por seis temporadas até perceber que a tese do purgatório era a que faria mais sentido depois de eles terem criado tantas coisas sem explicação – que por sinal, ficarão assim para sempre, já que a série terminou com muitas pontas soltas. Mas tudo pode ser explicado pelo simples fato de que era o purgatório mesmo.

A verdade é que esse final, se a série tivesse morrido ainda na primeira temporada, seria excelente. Mas depois de seis temporadas, tendo assistido apenas a primeira e o último episódio da última, dou graças pelo fato de que não precisei acompanhar os demais episódios, que se revelaram completamente desnecessários no fim das contas.

***

A educação familiar é algo muito importante na vida da pessoa. Penso que é de casa que se aprende muito, quase tudo, do que é necessário para ser uma pessoa íntegra, honesta, entre outros predicados. E disso não posso me queixar, meus pais me ensinaram muito bem. Coisas como não falar com estranhos na rua, dizer “obrigado” quando alguém lhe faz um favor, ou mesmo quando o fazem por obrigação – como agradecer ao motorista de ônibus, por exemplo.

Outra coisa que meus pais me ensinaram e eu carrego para toda a minha vida: não levar muita fé no que Caetano Veloso diz. Há algumas semanas, umas três, imagino, Caetano Veloso é  colunista do Segundo Caderno do Globo. Não obstante seja fã de sua obra, eis que autor de discos essenciais para minha formação musical, sigo à risca o que dizem meus progenitores. Daí que leio, leio e leio a coluna dele, mas não consigo dar muita bola pro que ele diz…

quinta-feira, 15 de abril de 2010

Tragédia em Niterói

O blog vê-se obrigado, diante da tragédia que se abateu sobre o estado do Rio de Janeiro recentemente, a interromper o silêncio não deliberado a que havia se submetido. E nos manifestamos da forma que melhor sabemos nos expressar: através de imagens, que já nos dizem tudo.

2010_04100003 2010_04100007 2010_04100011 2010_04100013 2010_04100015 2010_04100017 2010_04100018 2010_04100019 2010_04100020 2010_04100021 2010_04100022 2010_04100023 2010_04100026 2010_04100028 2010_04100029 2010_04100034 2010_04100036 2010_04100037 
2010_041000382010_04100005

Agora resta saber que consequências tal evento terá nas próximas eleições – não apenas a deste ano, mas também as municipais, que serão em 2012. Isso porque vivemos sob o mesmo governo há mais de duas décadas – não se deve esquecer que entre eleição e reeleições, o atual prefeito também fez seu sucessor, João Sampaio, e cedeu espaço a Godofredo Pinto, seu vice em outra ocasião, em que decidiu concorrer à governadoria do estado.

Enquanto o prefeito Jorge Roberto Silveira deu preferência à construção de museus, muitos dos quais inacabados, pouco se fez quanto à ocupação desordenada das encostas da cidade, que viveu um processo de favelização sem precedentes – enquanto que o Censo de 200 do IBGE apontava que na cidade havia 43 favelas, em 2008, o município já apontava algo em torno de 130. Todas surgidas ao arrepio da legislação e da fiscalização.

Mas as pessoas não decidem construir em encostas, comprometendo sua própria segurança porque lá a vista é melhor ou porque gostam de correr riscos etc. Isso se dá pelo simples fato de que não há política habitacional séria no Brasil, que dirá em Niterói. Há aqui, isso sim, política habitacional para a classe média e alta, haja vista o sem número de prédios que foram construídos em Niterói nesses últimos anos, sem que houvesse o devido acompanhamento em investimentos na infraestrutura da cidade.

Enquanto isso vemos as desastrosas declarações de nossso prefeito na imprensa, buscando deixar claro que ele não pode ser responsabilizado por tal tragédia, eis que imprevisível. Afinal, chiva forte, combinada à falta de acompanhamento da prefeitura são ambos eventos da natureza, sem qualquer relação com o homem.

Por fim, espero que a louvável mobilização da população fluminense para ajudar os desabrigados da chuva não se converta em um evento para angariar votos da população necessitada. Posso falar isso porque como voluntário nessa tarefa aqui perto de casa, pude presenciar tentativas nesse sentido, que, graças a Deus não se concretizaram – ou pelo menos não se perpetuaram.

Essa tragédia há de ser respondida pela população nas urnas. Assim espero.

quarta-feira, 10 de março de 2010

Seu Zé recomenda:

Eu sou fã do cara – aliás, devo muito a ele, já que posso dizer que aprendi a ler por causa dele. Bem, não dele exatamente, já que não me deu aula alguma – minha mãe se encarregou de tal tarefa – mas por causa de suas revistas.

Lembro-me até hoje de quando tinha por volta de cinco anos e via minha irmã mais velha ler com a maior satisfação do mundo as revistas da turma da Mônica. Ria de suas histórias, contidas naqueles balõezinhos, enquanto eu havia de me contentar com os desenhos e dali tentar extrair alguma coisa que fizesse sentido – para mim, até mesmo o conteúdo dos balões nao passavam de simples desenhos.

Minha mãe, sensibilizada com minha persistência em extrair alguma diversão daquelas páginas, mesmo sem entender o que tais códigos queriam dizer, dedicou seu tempo a ensinar-me a decifrá-los. Pouquíssimo tempo depois, lá estava eu, todo feliz, podendo ler as histórias por conta própria.

Aliás, isso me geraria uma imensa satisfação no ano seguinte, quando, ao ingressar na alfabetização, eu era a única criança da classe inteira que já sabia ler. Enquanto as demais crianças ainda aprendiam que “b” + “a” é igual à “ba”, a professora fazia questão de me levar pras outras turmas de alfabetização, e até da primeira série, para mostrar como eu, no começo do ano, já lia bem – como se fosse algum mérito dela.

Por essas e outras que penso que devo muito ao Maurício de Souza, que mesmo sem conhecê-lo, teve fundamental participação na minha formação educacional.

Mas seu Zé não pensa assim. De fato, mal ler ele sabe. Acha alguma graça das historinhas que lê nas tirinhas dos jornais, mas em geral as acha muito complexas. Por isso, sem pudor algum, ele recomenda a leitura do seguinte blog, esse sim enriquecedor, vasto de cultura e de visão crítica a respeito dos fatos. Ei-lo:

http://porramauricio.tumblr.com/

Vale a pena a visita – se você não se importar em ver suas lembraças pueris irem embora pelo ralo. Brincadeira…

Na verdade, o blog é uma resposta bem humorada a uma crítica feita pelo jornalista Dioclécio Luz no Observatório da Imprensa (você pode ler aqui), acusando a turma da Mônica de ser violenta e de ser um exemplo  claro de bullying, já que a fortona do grupo bate nos mais fracos e tem o controle da rua (ou da “lua”, pro Cebolinha), além de outras críticas específicas a outros personagens. Na verdade, eu acho que quem sofre o bullying na história é a Mônica, por ser baixinha, gorducha e dentuça, só que ela tem condições de se defender. Opiniões a parte, o blog foi feito por um cara que se assume fã das histórias do Maurício de Souza, mas nem assim perdeu a oportunidade de zoar. E o próprio Maurício já manifestou no twitter que se amarrou no blog. Então, dá uma olhada lá.

domingo, 31 de janeiro de 2010

Branco e preto, volume dois.

Registros captados via celular de uma ensolarada tarde de domingo no centro do Rio – hoje mesmo, entre uma prova e outra que fiz. O título remete a outro post fotográfico do ponto e vírgula (clique aqui para vê-lo), de 10 de julho de 2009.

Durante o longo intervalo em que não tive nada pra fazer, além de almoçar, é claro, dediquei-me a tirar essas fotos, munido apenas de uma máquina de 3.2 megapixels e um pouco de coragem, afinal é o centro do Rio. Tá aí o resultado:

Foto0051 Foto0030 Foto0032 Foto0033 Foto0034 Foto0035 Foto0036 Foto0037 Foto0038 Foto0039 Foto0040 Foto0041 Foto0042 Foto0043  Foto0045 Foto0046 Foto0048 
Foto0050

Foto0049

E tudo acaba num pequeno bloco família na Praça XV…

sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

A vez do morro

favela escada

Considero extremamente louvável a troca dessa política de confronto que havia sido adotada pelo nosso governador em seus primeiros anos de mandato – o que resultou apenas no aumento dos índices de criminalidade e de mortos em confrontos policiais – por uma presença mais ostensiva da polícia em favelas, diminuindo o poder territorial dos traficantes. Mas admito que o claro comprometimento do governo do estado em pacificar apenas as comunidades da capital me assusta um pouco.

Por fatores diversos, os quais perderíamos horas aqui só para listá-los, Niterói tem sofrido com um acelerado processo de favelização, surgindo novas comunidades a cada dia e tornando completamente inchadas as já existentes. Sem a presença do Estado – frize-se que aqui em Niterói a prefeitura é completamente omissa nessas questões, enquanto o governo do estado só pensa na capital – essas comunidades tornam-se abrigo principalmente para bandidos oriundos de favelas pacificadas no Rio. Não só as comunidades de Niterói, mas também outros lugares que, segundo a lógica do governador, talvez tenham menor importânica ainda, visto que não tem sequer potencial turístico que justifique o investimento, tais como São Gonçalo, Baixada Fluminense etc.

Esse reflexo já é visto nas estatísticas e sentido pelo povo de Niterói. Por serem traficantes de outras áreas, buscam abrigo em favelas controladas pela mesma facção, mas não podem exercer seu antigo ofício, por assim dizer. Daí resulta que eles têm que buscar outros meios de subsistência – ilegais, é claro. Com isso, há um incremento na quantidade de assaltos, sequestros e afins.

A governadoria não pensa em outra coisa senão a Copa e os Jogos Olímpicos – faz bem em priorizá-los, eis que o Rio é a vitrine do Brasil, mas isso não deve se tornar um privilégio, uma exclusividade. E a prefeitura do município só pensa em… sei lá no que ela pensa. Talvez no interminável Caminho Niemeyer, como se a solução para os nossos problemas estivesse em meia dúzia de prédios assinados por Oscar Niemeyer – nada contra, muito pelo contrário, sou fã do cara, mas isso não me impede de ter uma visão clara e objetiva dos fatos.

Deve-se ainda observar que o processo de favelização constante por que passa Niterói tem consequências ainda mais nefastas. Até porque, como visto no Rio, a questão da segurança se resolve simplesmente com policiais na rua, cumprindo seu dever institucional, que é a proteção do cidadão, seja ele quem for, e não invadindo favelas uma vez por mês e atirando a ermo contra bandidos e ferindo a dignidade de quem mora ali e possui trabalho, família etc.

A verdade é que da favelização resulta uma degradação ao ambiente, além de risco à vida – com construções mal-feitas em áreas de riscos – e à saúde das pessoas, já que não há em muitos casos água encanada e esgotamento sanitário, somado ao fato de as casas serem em geral sobrepostas umas às outras, criando ambientes úmidos e insalubres, propícios para determinadas doenças.

Modificar esse panorama é uma questão de se atender ao princípio da dignidade da pessoa humana, princípio motriz de toda a Constituição, para o qual todas as normas devem ser conduzidas. Então não podemos fechar os olhos a essa nova situação pela qual Niterói passa e exigir do poder público, em todas as suas esferas, uma melhor atuação.

Ouvindo O morro não tem vez, de Tom Jobim.

terça-feira, 26 de janeiro de 2010

Carta Póstuma

4272174057_d0868535d7_o

No tempo em que escrevo esse texto, calendários já são obsoletos. Há muito a humanidade já não sabe em que ano se está exatamente, desde a primeira vinda de Jesus Cristo, que dividiu a história. Não se faz mais sentido saber. Há poucos resistentes, que afirmam saber ao certo em que ano estamos, mas não são confiáveis, eis que até mesmo os números por eles afirmados são muito díspares entre si. Às vezes a diferença chega a dezenas de anos.

A verdade é que há muito tempo a humanidade se esqueceu de contar os anos. Viu que isso não se fazia mais necessário, ou talvez apenas por preguiça mesmo, já que hoje pouco fazemos; as máquinas fazem por nós. Só esquecemos de criar uma máquina que contasse os anos com eficiência – não fomos capazes de prever que aquele erro do bug do milênio se repetiria alguns séculos depois. Mas já estávamos tão entregues ao labor das máquinas que sequer pudemos antever isso.

Por causa dessa incapacidade de adequação cronológica pela qual a humanidade passa nos dias de hoje, não sei dizer ao certo o momento da história em que isso tudo começou. Sei que já faz alguns séculos – dois talvez – uma vez que eu mesmo, que ainda sou jovem, já estava aqui para poder presenciar tal fato. Mas acho que a origem disso tudo vai ainda mais longe: deve ter sido lá pelo século XX – sim, ainda temos registros históricos desse momento – quando o mundo viu surgir o conceito de Welfare State, o tal do Estado do bem estar social. Surgiram os tais direitos de segunda geração, também chamados prestacionais, ou seja, agora que a humanidade estava toda ferrada, castigada pelas guerras do século XX, o governo deveria fazer por onde e ampará-la. Ia-se pelo ralo aquele conceito do Adam Smith de que a mão invisível do mercado consertaria todas as coisas, e que o Estado jamais deveria intervir. A iniciativa privada dava lugar ao Estado em questões sociais, tais como educação e saúde. Isso somado ao absurdo avanço tecnológico que o mundo testemunhou a partir daquele século, muito mais do que todos os outros séculos somados e elevados ao quadrado, que permitiu que se descobrisse curas pra doenças antes tidas como incuráveis, métodos de rejuvenescimento da pele, e de prolongamento da vida etc.

Mas nós não estávamos satisfeitos: queríamos mais. Viver até os oitenta anos não era mais nada de especial – todos viviam. Vamos até os cem anos. Dos cem, vamos até os cento e dez, e assim por diante. Até um ponto em que se viu que poderíamos prolongar oquanto fosse as nossas vidas, ainda assim estariámos enclausurados em um corpo que não adiantasse o quanto as técnicas de rejuvenescimento permitisse, se tornaria cada vez mais caquético, eis que a natureza, nesse sentido, é uma força incontrolável, impossível de ser detida – talvez apenas retardável, como pudemos perceber nos primeiros anos.

Não bastava mais retardar o envelhecimento natural de nossas células, eis que um dia elas se desgastariam de qualquer jeito. Os átomos que compõem nossas células, que compõem nosso corpo, se cansariam um dia de cumprir sempre aquela mesma função, e partiriam em busca de outros átomos para formar novas moléculas e possivelmente novas células de um novo organismo. Descobriu-se então que a melhor forma de evitar isso tudo seria descobrir uma forma de nos eternizarmos. Foi o que fizemos: criamos corpos sintéticos, que não envelheceriam na mesma proporção que nossos frágeis corpos que Deus nos deu. E ainda assim quando estivessem velhos e frágeis esses corpos, tais como os corpos dos velhos de outrora, descartaríamos, como se descarta a um copo de plástico após saciar-se a sede.

E assim fizemos: transferimos nossos pensamentos, nossas ideias, valores, amores, amizades, e tudo o mais que nos fazia humanos a um corpo frio e sem vida, ao qual trataríamos de avivar e aquecer.

Primeiro a humanidade escolheu quem deveria fazê-lo: houve uma grande seleção, envolvendo as maiores nações do planeta, que indicou seus maiores pensadores, líderes, os mais respeitáveis enfim. Houve entre estes quem se opusesse, mas a grande maioria foi favorável ao projeto. Afinal, a vaidade neste momento falava mais alto do que muitas convicções pessoais e religiosas.

Com o tempo, barateou-se o procedimento, e todo o tipo de pessoa pode fazê-lo, por uma bagatela. Claro que era uma bagatela para os países do norte, eis que para muitos países subdesenvolvidos – mesmo depois de séculos, não conseguiram se livrar de tal alcunha – ainda era uma fortuna. Os resistentes, a quem me referi no começo dessa carta, são em sua maioria oriundos destes países, pois que além da questão financeira envolvendo o procedimento, ainda há o fato de que em sua maioria são países que possuem um apego à religião, a forças místicas que segundo suas crenças dominam o universo. Por isso mesmo entendem ser isso tudo uma afronta aos seus credos.

Àquele tempo eu não cria em Deus algum. Hoje me arrependo disso. Digo isso porque, assim que se foi barateando o custo do procedimento, fui um dos primeiros a buscá-lo. Depois de um tempo, já se via propaganda na TV a respeito, outdoors espalhados pelas principais avenidas das grandes capitais ao redor do mundo; um grande comércio surgiu a partir disso tudo. Grandes empresas farmacêuticas envolvidas, muitos lucros às custas de trabalhadores que sequer tinham condições de realizá-lo em si mesmos.

Fiz o procedimento e hoje, alguns séculos depois – tempo que sequer sei precisar, pois passei muito tempo ocupado em fazer tudo que pudesse fazer, o que meu modo limitado de vida pré-procedimento jamais me permitiria – vejo o vazio que tudo isso representa. Não deixei aqui na terra legado algum; nem quis fazê-lo durante muito tempo, já que imaginava que meu maior legado seria eu mesmo, fisicamente eternizado.

Com isso, não apenas eu, mas todos os que se submeteram ao procedimento passaram a viver uma vida sem propósito, eis que não nos restava mais nada a fazer – até mesmo o nosso trabalho havia sido delegado às máquinas, que o faziam sem se cansar ou reclamar. Há algumas dezenas de anos atrás fui cansando e percebi que não havia mais nada a ser visto, que não havia novidade alguma na terra. Subvertemos a natureza e ela agora nos subverte, ao nos escancarar o fato de que não somos para sempre – ou não devemos sê-lo. Tudo deve estar em constante mutação.

Hoje cansado disso tudo, escrevo essa carta, que na verdade já se afigura póstuma desde a primeira letra, eis que morri há muitos anos atrás; esse que vos escreve é apenas um projeto de humano, há muito largado em um corpo que não é seu. Já troquei de corpo algumas vezes, pois como já disse, assim como nós deveríamos ser, esses corpos não duram pra sempre. Mas desta vez, depois já de muito tempo assim, não pretendo mais trocar. Não há como me desligar, ou morrer, no velho jargão humano pré-procedimento. Por conta disso, só me resta esperar. Espero até que a bateria acabe. As células cerebrais que mantém minha consciência viva não resistirão à falta de energia. Daí não terei mais como ligar-me e assim poderei finalmente descansar em paz.

Minha porção ficção científica, aliada a um estranho surrealismo kafkiano me permitiram escrever esse texto. Tá, não é grande coisa, mas já tá melhor que Guerra Dos Mundos, não?

sexta-feira, 1 de janeiro de 2010

Adeus ano nem tão velho assim…

meias horasMeia-hora hoje é muito pouco… 

Bem, antes de mais nada, feliz ano novo a todos que lerem esse texto. 2010 já está aí, e esse post inaugura o novo ano do blog. Mas não vim aqui escrever a respeito do ano que se inicia, das resoluções de última hora que não serão cumpridas etc.

Vim para falar a respeito do ano que passou. Cada vez mais tenho a sensação de que os anos passam mais rápido: 2009 mais rápido que 2008, este, por sua vez, mais rápido que 2007, e por aí vai. Hoje estamos cá na ressaca do réveillon e amanhã já estaremos na páscoa. Os físicos com certeza encontrariam explicações de fato plausíveis, tais como a expansão do universo, que faz com que átomos e moléculas, para acompanhá-la, vibrem cada vez mais rápido e, por isso mesmo, a noção de tempo se modifica. O tempo está cada vez mais rápido também, no ritmo imposto pelo Big Bang, e consequente expansão do universo – desculpe a minha noção simplista da física, mas é que uma vez um amigo meu, físico, me contou essa história e nunca mais esqueci; acho que faz um certo sentido sim.

Outra explicação logicamente aceitável está no fato de que cada vez mais a vida cotidiana se tornou uma coisa rápida. Hoje não há espera: fazemos tudo e buscamos a resposta pra ontem. As cartas não levam mais dias até chegarem à casa de um amigo ou parente com quem deseja se corresponder, mas o e-mail leva nanossegundos até chegar lá – tudo depende de uma conexão boa. Há orkuts, twitters, facebooks e afins que nos expõem em tempo real ao mundo, e nos dão a pronta resposta ao que queremos. A fila sempre nos incomoda, pois implica sempre em uma grande espera.

É só compararmos a tecnologia que há hoje ao nosso alcance e a que tínhamos há dez anos, e a infinidade de possibilidades que essa mesma tecnologia nos permite nos dias atuais. Hoje, como JK já ansiava nos longínquos anos 50, do século passado, podemos tranquilamente viver cinquenta anos em cinco, pois o tamanho de informação a que temos acesso a um ano equivale a uma boa parcela de vida de nossos avós, por exemplo. Estes sim vivam com mais tranquilidade, pois não havia e-mail, SMS, micro-ondas, celular. Havia tão somente a espera.

Acho que se soma a isso o fato de que cada vez mais um ano representa uma parcela menor de nossas vidas, e portanto, em relação ao tempo vivido, é cada vez mais insignificante. Veja bem: para uma pessoa que acabou de completar um ano, viver mais um ano representa exatamente metade de sua vida. Para quem tem dez, 1/10 de sua vida. Mas para quem tem 50, é apenas mais um a se somar com os outros 49. Imagino que isso deve ter maior contorno exatamente por conta desse momento em que se vive hoje, no qual se espera resposta imediata pra tudo, e na maioria das vezes se obtem mesmo. Salvo algumas exceções, como aquela pessoa de 99 anos, em que mais um ano de vida pode ser considerada um grande feito, acho que para a maioria das pessoas conforme se envelhece, mais o envelhecimento se torna mais um elemento de sua rotina, e o tempo se torna algo cada vez mais cotidiano.

2009 foi pra mim de longe o ano mais rápido de minha vida – graças a Deus, pois não me deixou grandes lembranças. E espero para 2010, não apenas para quem está desse lado, mas para todos os que frequentam este blog, muito sucesso – pessoal e profissional –, saúde, paz e todo aquele etc e tal que costumeiramente se deseja em ocasiões como essa. Mas desejo também, e principalmente, que o tempo não passe assim tão rápido.

Feliz ano novo!

quinta-feira, 24 de dezembro de 2009

Feliz Natal!!!


Feliz Natal!!!, upload feito originalmente por Renan Costa.

Talvez seja como escrever um cartão, destes que compramos na papelaria, não sei ao certo. Mas o que eu sei é que em situações tais costumo nunca saber o que escrever, até o momento em que o escrever se torna inadiável, o que é o caso.

Estou há dias pensando em um post de natal para este blog, e simplesmente não tinha ideia de como fazê-lo, de como ao menos começá-lo, até que há pouco menos de dois minutos veio-me este lampejo. Começo pelo fato de que não sei como começá-lo, e assim, ao menos posso introduzir um pretexto para o texto – mas deixando claro não ser este o tema principal do post, até porque esse é um tema mais do que recorrente nestas páginas. E lá se vão dois parágrafos...

Pois bem, deixando claro que a falta de criatividade deste interlocutor não é o tema sobre o qual se discorrerá no post de hoje, passo à questão de fundo que me pôs diante do teclado em um dia como hoje: nossos (acho que falo por todos que mantem o blog quando escrevo isto) sinceros votos de um feliz natal e um ótimo ano que em breve se iniciará para todos, caros leitores.

Também creio que posso falar por todos aqui que natal é bem mais que troca de presentes e comida que só se vê uma vez por ano – por que não temos rabanada o ano inteiro? –, pelo que realmente nos representa. O símbolo maior do natal não é, nunca foi, nem nunca será o papai noel, os elfos que vivem em regime de semi-escravidão no polo norte fazendo brinquedos ou as filas dos shoppings, que aliás, a cada ano se enfeitam cada vez mais cedo - daqui a pouco o papai noel vai chegar lá junto com o coelho da páscoa pra poder guardar seu lugar.

Aos leitores que não creem, perdoem-me a minha falta de laicidade, mas quem realmente é o rockstar do natal é aquele cara que trinta e três anos depois desta data que comemoramos amanhã morreria na cruz pela humanidade. No mais, é tudo supérfluo, coisa menor.

Até porque "seja rico ou seja pobre, o velhinho sempre vem" talvez seja uma das maiores mentiras da humanidade. Mentira maior que essa só os panetones de Arruda lá em Brasília. Posso afirmar com absoluta certeza: não há democracia no natal. Não neste natal que praticamos hoje, baseado no consumo e em um pragmatismo excessivo, em que cada vez mais valores e crenças - sejam elas quais forem - se perdem. Mas talvez isso seja papo pra outro post.

Pois bem, é isso: tenham todos um feliz natal. E ponto.

Ah, pode ter certeza: não estou ouvindo Simone, a cantora oficial do natal.

sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

Presente de Natal

A fotografia é hoje uma das minhas grandes paixões. Em meio a tantos problemas e estresses, ela me desestressa. Por gratidão ao que ela fez por mim, dou o meu melhor nas fotografias que faço. As que publico aqui no blog são algumas das que foram tiradas recentemente em Natal, cidade que é um presente não apenas aos olhos, mas a todos os sentidos humanos – o que, como se vê, facilitou em muito minha tarefa. Mas aqui apenas a visão irá se satisfazer com os encantos de tal lugar. Ei-las, portanto:

SDC10526

SDC10303

SDC10318

SDC10319

SDC10323

SDC10483

surfista no morro do careca

barco

jangada pb

Julia

literatura de cordel

Morro do careca

Natal refletida

ônibus em Natal

pai e filho

pescador pb

ponte newton navarro

por do sol em redinha

Praia do meio 3

praia do meio 4

Redinha com Ponte ao fundo

julia chutando a água

4195172366_d5029e35ca_o

Janela do avião

Fim.